quarta-feira, 10 de abril de 2019

Behaviorismo: uma área homogênea?


Yuri Lelis Rafael
Verônica Bender Haydu

Ao entrar em contato com o Behaviorismo, seja em cursos de graduação, livros introdutórios ou palestras e congressos, é possível que o leitor tenha a impressão de que está estudando uma área homogênea, na qual todos os membros concordam sobre as questões mais gerais, além de todos estarem de acordo com as premissas descritas por B. F. Skinner. Porém, uma análise mais detalhada da área pode indicar o equívoco nessa posição e revelar que o behaviorismo é uma área heterogênea, e que seus autores discordam e discutem entre si sobre diversos temas fundamentais sobre o comportamento. É justamente essas discussões que favorecem o desenvolvimento da ciência e que favorecem o planejamento de novas pesquisas.
            Na primeira metade do século XX já é possível encontrar textos sinalizando a falta de homogeneidade no Behaviorismo. Comentando essa característica, Williams (1931) defendeu que o behaviorismo seria uma área muito menos unificada em comparação com a psicologia da Gestalt e a psicologia introspeccionista da época, e descreve cinco autores considerados behavioristas que, segundo ela, apresentam diferentes posições em relação a assuntos fundamentais da psicologia. Williams concluiu que os autores apresentados discordam até mesmo sobre o significado do próprio termo behaviorismo.
            O passar das décadas não solucionou a heterogeneidade do behaviorismo. O'Donohue e Kitchener (1999), décadas depois, em um livro dedicado à temática, descrevem 15 versões de behaviorismo, cada uma com características e pressupostos específicos, ainda que compartilhem características gerais maiores que definam cada um como membro do grupo behaviorista. É importante também comentar que, como indicado pelos autores, os critérios para definir um autor como behaviorista e para definir uma versão do behaviorismo como diferente da outra, não são fixos e totalmente delimitados. Assim, não é possível estimar com clareza quantas versões são encontradas na literatura, dependendo sempre de quem realiza a análise e da forma na qual ela é desenvolvida.
            Algumas das correntes behavioristas citadas por O'Donohue e Kitchener (1999) são: o interbehaviorismo, o behaviorismo funcionalista contextual, o behaviorismo teleológico e o behaviorismo lógico, além do behaviorismo radical. Essa pluralidade permite o desenvolvimento de discussões internas que permitem o desenvolvimento da área. Esses diferentes pontos de vistas devem ser conhecidos e considerados por qualquer um que se interesse pela Ciência do Comportamento, seja para aprimorar sua aplicação prática ou contribuir para o estabelecimento do behaviorismo como uma filosofia da ciência.

Referências

O'Donohue, W. & Kitchener, R. F. (1999). Handbook of Behaviorism (1a ed.). California: Academic Press.
Williams, K. A. (1931). Five Behaviorisms. The American Journal of Psychology, 43(3), 337-360. https://doi.org/10.2307/1414607

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O compromisso social da análise do comportamento: relevância da aproximação com o feminismo



Jordana Fontana
Verônica Bender Haydu

            O termo feminismo é impregnado de uma pluralidade de significados e interpretações, de acordo com as diferentes correntes feministas e pontos de vista a respeito do assunto. Em termos gerais, pode ser definido como uma teoria política ou um movimento social que analisa as relações sociais voltadas ao gênero, buscando transformar práticas de dominação e opressão que favorecem homens em detrimento de mulheres. Tem como objetivo a resistência à dominação masculina, a luta pela liberdade feminina e a igualdade de direitos entre gêneros. Em termos analítico-comportamentais, o feminismo pode ser compreendido como uma forma de contracontrole em oposição a práticas de opressão, tendo como objetivo modificar contingências sociais de dominação masculina. A análise do comportamento é uma ciência que demonstra clara preocupação com questões sociais, o que pode ser estendido para a discussão de gênero. Skinner atentou em várias de suas obras para a construção de uma sociedade mais justa, com pessoas livres de qualquer forma de controle opressivo, portanto, uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo pode contribuir para a realização de diversas ações enriquecedoras das práticas da ciência do comportamento.
Por muito tempo, os analistas do comportamento se mantiveram afastados de discussões referentes à questão de gênero, tendo recebido críticas pelo androcentrismo presente em suas teorias e pela incompatibilidade com ações que visem à equidade de gênero. Dentre os vários aspectos criticados, está o foco de suas pesquisas no comportamento individual em vez do grupal. Além disso, os próprios analistas do comportamento muitas vezes se comportam de forma a contribui para a perpetuação do discurso dominante. Por muitos anos as mulheres têm sido excluídas da esfera pública e da ciência de forma geral (Schiebinger, 2001). Conforme apontou Couto (2017), recorrentemente, mulheres ficam em posições menos valorizadas do que homens em cargos, associações; recebem menos convites para eventos e há disparidades em pesquisas e publicações.
Maria del Rosario Ruiz (Ruiz, 1995, 1998), feminista e analista do comportamento, produziu diversos artigos argumentando ser possível uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo, pois existem convergências no que diz respeito à visão sobre o processo de como são constituídas as relações de dominação masculina na sociedade. As duas teorias são contrárias ao reducionismo biológico e a visão essencialista na determinação do que é feminino e masculino e, portanto, rejeitam esses fatores como justificativa da desigualdade de gênero. Ao contrário, conforme Ruiz, os papéis atribuídos a cada gênero na sociedade são construídos por meio de práticas culturais e, por isso, há possibilidade de mudanças.
Diante do exposto e tendo em vista a preocupação social da análise do comportamento, sua aproximação com o feminismo pode auxiliar na proposição de intervenções que visem a mudança dessas práticas, bem como discutir a participação das mulheres na ciência, possibilitando que elas tenham destaque e sejam mais ouvidas no processo de construção do conhecimento. A análise do comportamento tem muito a contribuir em questões sociais e de gênero, e a influência de mulheres feministas adeptas a essa teoria e ações feministas como forma de contracontrole podem ser um caminho que essa iniciando sua trajetória. A área de planejamento cultural está em crescimento e pode se beneficiar dessa aproximação. Discussões feministas podem ajudar a dar maior visibilidade para essas pesquisas e incitar maior propagação desse tipo de trabalho.
           
Referências
Couto, A. G. (2017). Uma análise Behaviorista Radical da discussão feminista sobre o empoderamento da mulher. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba). Recuperado de https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/52567/R%20-%20D%20-%20ALINE%20GUIMARAES%20COUTO.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
Ruiz, M. R. (1995). B. F. Skinner’s Radical Behaviorism: Historical misconstructions and grounds for feminist reconstructions. Behavioral and Social Issues, 19(2), 161-179.
Ruiz, M. R. (1998). Personal agency in feminist theory: Evicting the illusive dweller. The Behavior Analyst, 21, 179-192.
Schiebinger, L. (2001). O feminismo mudou a ciência? Bauru, SP: EDUSC. (Original publicado em 1999).


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O que você precisa saber sobre a depressão



Andresa Gabriele Bibiano
Verônica Bender Haydu

            Alguma vez você já se sentiu muito triste, desmotivado e sem energia, ou observou alguém que estava se sentindo assim e logo pensou que você ou aquela pessoa poderiam estar sofrendo de depressão? Sua preocupação não é absurda, pois depressão é assunto sério! Já nomeada “o mal do século”, a depressão tem apresentado índices alarmantes entre a população brasileira e mundial. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, até 2020, a depressão deverá ocupar o segundo lugar no ranking das doenças mais incapacitantes, gerando altos custos para os sistemas de saúde. Diante desse cenário, o objetivo desse texto é apresentar informações relevantes sobre a depressão, a partir do ponto de vista médico e psicológico.
            Inicialmente, deve-se destacar que nem toda tristeza é considerada depressão e a distinção entre essas duas condições é fundamental para que as pessoas busquem o auxílio adequado. A tristeza é considerada uma reação emocional “normal” diante das adversidades da vida. Ser demitido do emprego, terminar um relacionamento de longa data e experienciar a morte de alguém próximo, são situações que fazem com que as pessoas se sintam tristes, incapacitadas e sem disposição. No entanto, nesses casos esses sentimentos e reações desaparecem após alguns dias ou semanas e a pessoa se adapta à nova situação, retomando suas atividades diárias sem ajuda terapêutica ou medicamentosa.
            No caso da depressão, por outro lado, os sentimentos e reações são intensos e duradouros, produzindo sofrimento à pessoa e prejudicando seu funcionamento social, profissional e pessoal. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), para caracterizar um transtorno de depressão, a pessoa deve apresenta humor deprimido, diminuição do interesse ou prazer em realizar suas atividades, perda ou ganho de peso, insônia ou excesso de sono, fadiga, perda de energia, agitação, ansiedade, além de dificuldade de concentração que podem ocorrer na maior parte do dia por pelo menos duas semanas consecutivas. Os tratamentos indicados para a depressão – do ponto de vista médico e biológico – geralmente incluem medicamentos, como a Fluoxetina ou Escitalopram ou, ainda, estabilizadores de humor, como Depakote ou Carbolitium. Cabe à pessoa que sofre de depressão a busca por um médico psiquiatra que possa avaliar a necessidade ou não do uso de medicação.
Apesar de bastante útil, o DSM não considera as particularidades de cada pessoa deprimida, restringindo sua atenção aos sintomas. Para a Análise do Comportamento, abordagem psicológica que orienta a prática de diversos profissionais da saúde mental, antes de ser considerada como sendo um transtorno psicológico, a depressão é entendida como um padrão de relações entre o indivíduo e o ambiente, caracterizado pela diminuição geral das ações do indivíduo e da sua interação com o ambiente. Alguns aspectos importantes dessa relação incluem, a perda do valor de eventos definidos como “prazerosos” e/ou “motivadores” para a pessoa, redução da capacidade de exercer mudanças em sua vida ou, ainda, a incapacidade de enfrentar situações estressantes pelas quais tem passado. Também é comum que a pessoa que está passando por esses problemas receba apoio social ao apresentar comportamentos como choro, reclamações e irritabilidade, de modo que esses comportamentos se tornam mais frequentes. Desse modo, a Análise do Comportamento considera cada caso como singular e exige uma investigação aprofundada da história de vida do indivíduo.
            A perspectiva analítico-comportamental permite ainda avaliar as variáveis que estabeleceram e que mantêm os comportamentos de uma pessoa em depressão por meio da análise de contingências, sendo estas definidas como relações de dependência entre os eventos ambientais e as ações do indivíduo. A partir das relações de contingência pode-se descobrir que as possíveis razões pelas quais uma pessoa apresenta depressão.  Assim, é importante fazer uma análise da depressão, tendo como base os eventos ambientais que são passíveis de serem modificados pelo próprio indivíduo. O principal objetivo do terapeuta analítico-comportamental é ajudar a pessoa a compreender seu próprio comportamento depressivo e propor intervenções que permitam que ela realize mudanças e novas formas de se comportar em relação ao seu ambiente.
            Apesar de apresentarem posições diferentes, as áreas da Psicologia e Psiquiatria unem forças para desenvolver os melhores tratamentos para a depressão que, na maioria das vezes, apresenta os melhores resultados a partir da combinação de terapias comportamentais e medicamentosa. Caso você esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteja, não ignore os sinais! A tristeza também pode se tornar um quadro depressivo mais severo e o diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento obtenha resultados positivos. Por isso, informe-se, auxilie outras pessoas, procure ajuda. Depressão tem solução!

Referências

American Psychiatric Association (2014). Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders, (5th ed.). Washington DC: American Psychiatric Association.

Cavalcante, S. N. (1997). Notas sobre o fenômeno depressão a partir de uma perspectiva analítico-comportamental. Psicologia: Ciência e Profissão, 17(2), 2-12.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

É possível ser feliz na universidade?


Fernanda Torres Sahão
Nádia Kienen

            “Passei no vestibular! Agora é só alegria”, disse o calouro, em meio a risadas e expressões de “dó” dos amigos e familiares que já passaram pela universidade. O sofrimento vivido nesse contexto, apesar de algumas vezes levado na brincadeira, vem sendo fonte de preocupações e cada vez mais recorrente no meio universitário. Sobrecarga de atividades, assuntos mais complexos e exigência de desenvolvimento de um novo repertório para lidar com tudo isso são fatores presentes na sua vida, não são? Você passa a maior parte do seu tempo nesse contexto, precisando conciliar aspectos da sua vida pessoal com os desafios da formação profissional. As experiências vividas na universidade têm grande impacto na sua qualidade de vida, dentro e fora desse contexto. 
            A qualidade de vida dos estudantes vem sendo alvo de reportagens, estudos empíricos e teóricos, e foco de intervenção, tanto no Brasil quanto em outros países do mundo. Constata-se um aumento na frequência de distúrbios de comportamento na população universitária, especialmente em relação aos níveis de estresse, ansiedade e depressão (Padovani et al., 2014). Além disso, o tema tem sido amplamente discutido e até polemizado nas redes sociais, com estudantes alertando para o custo de estar na universidade, a pressão sentida e o sofrimento causado pelas demandas, além da rotina exaustiva vivenciada.
            Não é possível separar as experiências vividas na universidade de outros aspectos da sua vida fora do contexto universitário, considerando o tempo que você passa nesse ambiente e as interações sociais que você estabelece. Para entendermos a complexidade da adaptação acadêmica, precisamos considerar pelo menos cinco dimensões da vida do estudante (Almeida, Soares, & Ferreira, 2002): (1) a dimensão pessoal (ajustamento psicológico e bem-estar geral), (2) interpessoal (nível de integração com amigos e percepção de apoio), (3) carreira (decisão e satisfação com a escolha), (4) estudo (nível de organização e compromisso com estudo) e (5) institucional (satisfação e vínculo com a instituição).
            Alguns aspectos comuns que estão relacionados a essas dimensões são: desempenho acadêmico, gestão do tempo, autonomia, administração dos recursos financeiros, problemas com professores e colegas, ajustamento a novas regras, assumir novas responsabilidades, lidar com tarefas acadêmicas mais exigentes e expectativas com o mundo do trabalho. Isso tudo lhe parece familiar? O que é possível fazer para lidar com tantos fatores que, aparentemente, podem parecer fora do seu alcance? Será que há uma luz no fim do túnel?
            Respondendo a essas perguntas, alguns autores apresentam sugestões que podem facilitar a sua vida na universidade, como: (a) buscar informações sobre as oportunidades oferecidas pela universidade (tanto atividades acadêmicas quanto atividades que promovam a socialização); (b) comprometer-se com a vida acadêmica, pois desenvolver-se intelectualmente pode auxiliar na adaptação; (c) organizar o seu tempo, de modo a planejar momentos não só de estudo, mas também para lazer; (c) realizar atividades que estejam de acordo com seus objetivos profissionais; (d) procurar professores, colegas, funcionários caso esteja precisando de informações, ajuda ou mesmo de um ombro amigo! Ter uma rede de apoio é imprescindível para levar uma vida mais satisfatória na universidade. Lembre-se: você não está sozinho nessa! Caso esteja passando por momentos de sofrimento intensos, procure a clínica psicológica da universidade, ou busque informações sobre locais que oferecem esse tipo de serviço.
E então... será que é possível ser feliz na universidade? O túnel pode ser um pouco longo, escuro e com alguns obstáculos. Mas, com um pouco de ajuda, podemos agir de modo a abrir algumas frestas nesse caminho, enfrentar os obstáculos e ver a luz não só no fim do túnel, mas durante todo o percurso!

Referências
Almeida, L. S., Soares, A. Paula C., & Ferreira, J. A. (2002). Questionário de vivências acadêmicas (QVA-r): avaliação do ajustamento dos estudantes universitários. Avaliação Psicológica, 1(2), 81-93. Recuperado de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712002000200002&lng=pt&tlng=pt

Padovani, R. C., Neufeld, C. B., Maltoni, J., Barbosa, L. N. F., Souza, W. F. de; Cavalcanti, H. A. F., & Lameu, J. N. (2014). Vulnerabilidade e bem-estar psicológicos do estudante universitário. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 10(1), 2-10. doi: 10.5935/1808-5687.20140002

Teixeira, M. A. P., Castro, G. D., & Piccolo, L. R. (2007). Adaptação à universidade em estudantes universitários: um estudo correlacional. Interação em Psicologia, 11(2), 211-220.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A mentira sob a perspectiva analítico-comportamental


Pedro E. A. Costa
Paulo R. H. Gurgel
Verônica Bender Haydu
Alex E. Gallo

Mentir é tão humano como errar ou talvez até mais. Mas por que mentimos? Como aprendemos a mentir?  É possível identificar quando alguém está mentindo? Compreender os processos de aquisição e manutenção do comportamento de mentir é importante para esclarecer esse comportamento sob a perspectiva analítico-comportamental. Aqui será discutido como esse comportamento é aprendido e algumas maneiras de identificar o comportamento de mentir por meio de observação.
O mentir, sob a perspectiva analítico-comportamental, é um operante verbal – um comportamento que gera consequências mediadas pelo outro, as quais o fortalecem. O comportamento verbal tem uma característica própria, ele afeta o comportamento de outras pessoas fazendo-as se comportar de determinadas maneiras (Haydu, 2005a). Enquanto operante verbal, o mentir pode ser aprendido na interação do indivíduo com os membros da comunidade verbal desde os primeiros anos de sua vida (Haydu, 2005a; Honório, 2012). Ele poder ser modelado por suas consequências e pode ser adquirido por meio de imitação e/ou de instruções. Observa-se uma frequência maior de mentiras quando o indivíduo é exposto a ambientes considerados punitivos (Haydu, 2005b; Hübner, da Roch, & Zotto, 2010). Outro motivo que pode levar a emissão da mentira é a possibilidade de acesso a algo que o mentiroso não acredita conseguir de outra forma, tais como prestigio e vantagens (Haydu, 2005b). Reafirmado, comportamento de mentir é mantido pelas consequências que produz.
O mentir não é apenas comportamento verbal, vocal e consciente. Estudos empíricos relatam que por muitas vezes o corpo pode apresentar diversos “sinais’’ não passiveis de controle, que podem servir como pistas para identificar quando o indivíduo está mentindo (Honório, 2012; Hübner et al., 2010). Esses comportamentos, tais como expressões faciais, são denominados não verbais, e podem servir como indicativos de sentimentos e sensações.
Ao mentir, é possível se observar que o mentiroso apresenta com maior frequência: dificuldade em desenvolver o assuntou ou história, evitação de contato visual, baixa frequência de movimentos de braços e movimentos da cabeça incompatíveis com suas verbalizações do sim e do não.  Por mais inusitado que pareça, o mentiroso tende a movimentar verticalmente a cabeça quando diz não e horizontalmente a cabeça quando diz sim (Hübner et al., 2010). Entretanto, deve-se considerar que outros fatores, por exemplo, a ansiedade, medo, dor e até mesmo um bom treino de como omitir ou apresentar tais comportamentos, podem interferir em uma análise funcional desse comportamento.
A comunicação, por muitas vezes, vai muito além da vocalização e o comportamento não verbal pode fornecer informações que diferem ou completam o que foi dito. Os argumentos apresentados nos parágrafos anteriores permitem sugerir que o comportamento de mentir é uma das funções básicas de linguagem, é consciente ou inconsciente, verbal ou não verbal, e tem por objetivo oferecer informações falsas ou privar das verdadeiras. Além disso, o mentir é uma parte integrante repertório verbal estabelecido ao longo da interação do indivíduo com a comunidade verbal e a instalação do repertório é tão importante quanto sua identificação.

Referências

Haydu, V. B. (2005a). Como se aprende a mentir? Tribuna do Vale do Paranapanema, Rolândia, nº 1193, p. 3.  Disponível em: http://www.uel.br/pessoal/haydu/textos/como_se_aprende_a_mentir.pdf
Haydu, V. B. (2005). Por que as pessoas mentem? Tribuna do Vale do Paranapanema, Rolândia, nº 1195, p. 7. Disponível em: http://www.uel.br/pessoal/haydu/textos/por_que_as_pessoas_mentem.pdf.
Honório, F. F. (2012). Precisão na detecção de mentiras: Investigação sobre o efeito da detecção indireta. Dissertação de Mestrado em Ciências do Comportamento, Universidade de Brasília. Brasília. 
 Hübner, M. M., da Rocha, G. M., & Zotto, L. L. S. (2010). Mentira. In P. I. C. Gomide (Org.), Comportamento Moral: Uma Proposta para o Desenvolvimento das Virtudes. Curitiba, PR: Juruá.


sábado, 8 de dezembro de 2018

Porque é tão difícil gerenciar o tempo?




Edneli Natália Ferreira da Costa
Nádia Kienen

Há quem diga que o tempo passa muito rápido. Outros, que precisam de mais tempo. Alguns, ainda, que não têm tempo para nada. Mas a verdade é que todos nós temos a mesma quantidade de tempo que passa na mesma velocidade. Eu, você, seu chefe, sua filha e o Presidente da República temos 24 horas, 1140 minutos e 86400 segundos por dia. Mas então, porque será que é tão difícil lidar com o tempo?
Quando falamos de gerenciamento de tempo, na realidade estamos nos referindo ao gerenciamento das atividades que iremos realizar ao longo do tempo. E para isso, precisamos ser capazes de fazer muitas coisas. “Gerir” o tempo, uma equipe, uma empresa ou qualquer outra coisa, não descreve apenas um comportamento, mas um conjunto de comportamentos complexos.
 Antes mesmo de planejar nossas atividades, precisamos saber quanto tempo levaremos para realizar cada uma, quais tarefas são minhas prioridades e quais fatores poderão interferir na realização dessas tarefas.... Tudo isso está relacionado ao autoconhecimento. Na visão da Análise do Comportamento, autoconhecimento indica a capacidade de descrever seus próprios comportamentos, isto é, ter consciência de como provavelmente eu irei me comportar diante de determinada situação. O conhecimento do próprio comportamento nos permite prever como iremos agir e então, controlar o nosso comportamento, o que é essencial quando precisamos planejar e executar as tarefas, por exemplo.
Por falar em controle, esse é um aspecto fundamental na gestão do tempo. Uma das principais queixas é que as pessoas não são produtivas porque procrastinam, ou seja, apresentam dificuldade de iniciar ou finalizar as tarefas ou evitar atividades que causam distração. Para evitar a procrastinação é necessário que tenhamos disciplina e capacidade de nos manter focados, o que está relacionado ao autocontrole. Falamos anteriormente que quando nos conhecemos conseguimos identificar quais variáveis influenciam nosso comportamento, certo? A partir disso, podemos realizar modificações no ambiente de forma que aumente a chance de realização da atividade planejada. Por exemplo, se eu sei que as notificações do celular são uma distração e que, provavelmente, quando a tela do celular acender, existe grande chance de eu parar de fazer o que estava fazendo e “gastar” um bom tempo interagindo nas redes sociais, eu posso simplesmente deixar o celular em outro ambiente ou desligar o Wi-Fi por um período.
Mas claro que você precisa escolher qual atividade você precisa realizar ou não, ou pelo menos, qual delas é a mais importante ou mais urgente para você. Esse é o processo de priorização, que envolve tomar uma decisão do que fazer e do que não fazer num determinado período de tempo. Para essa avaliação, podemos pensar nas consequências das nossas ações. O que pode acontecer seu eu deixar de fazer isso? Qual o resultado da realização dessa tarefa? Quais das tarefas me trarão melhores resultados?
Enfim, poderíamos gastar muito tempo do nosso dia escrevendo sobre gestão do tempo e todos os comportamentos envolvidos nesse fenômeno. O lado bom é que todo comportamento é aprendido, o que significa que ainda dá tempo de aprendermos a ser mais produtivos. Comece observando seu próprio comportamento, calculando quanto tempo você gasta em cada atividade, o que faz você se distrair com mais facilidade e o que acontece depois de cada uma dessas coisas. Tenho certeza que você fará descobertas incríveis!

Sugestão de Leitura Complementar:

Nico, Y. C. (2001). O que é autocontrole, tomada de decisão e resolução de problemas na perspectiva de B. F. Skinner. In H. J. Guilhrad (Org.). Sobre comportamento e cognição: Expondo a variabilidade (pp. 62-70). Santo André, SP: ESETec Editores Associados.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Pequenas modificações em sua rotina podem ser significativas contribuições ecológicas



Marcela Ortolan
Verônica Bender Haydu
Silvia Regina de Souza

Muitos dos nossos comportamentos são prejudiciais ao planeta. Um exemplo disso é o lixo que ao ser descartado de forma incorreta polui a água e o solo, causa doenças, e chega a provocar a morte de alguns animais. Contudo, mesmo sabendo da importância de se ter atitudes ecológicas, não é fácil mudar hábitos antigos. Para enfrentar esse problema, especialistas em Analise do Comportamento fizeram pesquisas e descobriram que é possível tornar essas mudanças mais fáceis, reorganizando alguns detalhes em nossa casa ou no nosso ambiente de trabalho (Brothers et al., 1994; Thaler & Sunstein, 2009).
Olhe para a sua rotina e reflita: que comportamentos mais apropriados para a preservação do ambiente você gostaria de adotar? Na tabela apresentada a seguir fizemos algumas sugestões de atitudes ecológicas para auxiliar em sua reflexão.

Exemplos de comportamentos pró-ambientais que podem ser adotados no cotidiano


Aqui vamos usar a reciclagem de lixo como exemplo. Para ter aproveitamento máximo do lixo no processo de reciclagem, devemos separá-lo em três diferentes tipos: reciclável, orgânico e rejeito. O lixo orgânico é todo aquele que pode virar adubo, como casca de frutas e legumes, e restos de comida. O lixo reciclável é constituído por tudo aquilo que pode ser reutilizado como matéria prima, por exemplo: papel, papelão, embalagens de vidros, metal, plástico e isopor. O lixo rejeito é tudo aquilo que não pode ser reciclado, como papel higiênico, guardanapo de papel usado, fitas adesivas, esponjas. Para poder fazer corretamente a separação do lixo, é preciso ter ao menos um local de descarte para cada tipo de lixo. Entretanto, às vezes é difícil lembrar onde colocar cada um ou, ainda, ficamos com preguiça de levar até a lixeira correta e acabamos colocando na primeira que achamos pela frente. Assim, a melhor forma de evitar colocar o lixo em local incorreto é colocando a lixeira de cada tipo de lixo próximo do local onde mais se produz aquele tipo de lixo (Brothers et al., 1994). Por exemplo, o lixo orgânico em geral é mais produzido na cozinha, normalmente próximo da pia ou do balcão onde se descasca os alimentos, então esses são lugares onde pode ficar sua lixeira de resíduos orgânicos. Já o lixo reciclável costuma ser produzido próximo à escrivaninha ou talvez próximo do armário da cozinha, onde abrimos pacotes, sendo esses bons lugares para deixar as lixeiras.
Em casa, pense nos locais onde colocar as lixeiras e verifique se são mesmo os melhores. Se não funcionar na primeira vez, redistribua as lixeiras novamente e veja o que acontece. Lembre-se que se a lixeira estiver muito distante do local onde o lixo é produzido, vamos ter que andar mais para colocar aquele lixo no recipiente certo e isso diminui a probabilidade desse comportamento ser emitido. Quanto mais difícil é para fazermos algo, menos estaremos inclinados a fazê-lo.
Adotar novos hábitos nem sempre é fácil, mas pode ser facilitado por pequenas mudanças na organização dos locais onde vivemos. Para isso, precisamos saber o que queremos mudar e olhar para o local onde estamos, nos perguntando o que poderia tornar esse comportamento mais fácil de ser emitido. Depois disso é importante não ter medo de testar as estratégias para saber o que funciona e o que não funciona. O futuro do planeta em que vivemos depende dos hábitos que temos hoje! Que tal começar a mudar agora?

Referências
Brothers, K. J., Krantz, P. J. & McClannahan, L. (1994). Office Paper Recycling: a function of container proximity. Journal of Applied Behavior Analisys. 27(1), 153-160. doi: 10.1901/jaba.1994.27-153
Thaler, R. H. & Sunstein, C. R. (2009). Nudge: o empurrão para a escolha certa. Rio de Janeiro, Brasil: Elsevier.