terça-feira, 20 de junho de 2023

Mindfulness na Análise do Comportamento?

 

 

Um macaco meditando. Na literatura budista o macaco é usado para representar “inquietação e distratibilidade”. Essa imagem foi gerada com a Inteligência Artificial “craiyon” em 11/06/2023.

Wildson Cardoso Assunção

Célio Roberto Estanislau

 Verônica Bender Haydu


No mundo tecnológico acelerado e repleto de estímulos em que vivemos, muitas pessoas têm dificuldade em manter alguns cuidados com sua própria saúde e rotina, o que favorece o surgimento do estresse. Em níveis avançados, o estresse pode levar à Síndrome de Burnout. Considerando esse aspecto, Jon Kabat-Zinn propôs em 1979 uma terapia chamada de Redução de Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR). Essa terapia é desvinculada de práticas religiosas e tem chamado a atenção da comunidade científica ao longo das últimas décadas devido às evidências de efeitos positivos tanto nos relatos de praticantes quanto por meio de resultados de pesquisas empíricas.

O estudo do estresse não tem sido um tema central de interesse na Análise do Comportamento (AC), mas Sanzovo e Coelho (2007), descreveram o estresse como uma resposta do organismo a estímulos aversivos. Além disso, esses autores citam que de acordo com Torres e Coelho (2004) “uma importante habilidade no manejo do stress é estar sempre sensível às contingências de maneira que seja possível perceber as mudanças significativas no ambiente que poderiam vir a demandar algum tipo de adaptação” (Sanzovo & Coelho, 2007, p. 236).

Uma alternativa de tratamento dos sintomas de estresse são as práticas de mindfulness (atenção plena), as quais têm sido utilizadas por terapeutas analítico-comportamentais da Terapia de Aceitação e Compromisso (cf. Brinkborg et al., 2011) e da Psicoterapia Analítica Funcional. Apesar desse método parecer bastante diferente dos métodos da AC tradicionais, Muñoz-Martinez et al. (2017) defendem que mindfulness pode ser entendida como uma habilidade (devido à objetividade de auto descrição verbal sobre o que o indivíduo faz) ou como estratégia (devido às práticas de exercícios específicos). Além disso, uma das definições mais comuns da mindfulness se refere simplesmente à atenção (Martin, 1977) e conforme destacaram Strapasson e Dittrich (2008), a atenção é um comportamento, passível de análise funcional.

Os estudos em AC sugerem que, de forma semelhante ao que ocorre em outras áreas da ciência, mindfulness tanto pode ser vista como uma habilidade que pode ser aperfeiçoada (uma prática mantida pelas suas consequências), como pode ser vista como uma intervenção com potencial de influenciar outros comportamentos (cf. Fuller & Fitter, 2020; Reed, 2023). Embora ainda haja muitas questões a serem exploradas na relação entre mindfulness e Análise do Comportamento, as pesquisas até o momento indicam um potencial promissor. Concluímos que a integração das abordagens terapêuticas analítico-comportamentais com a mindfulness pode ampliar as estratégias de intervenção e oferecer ao cliente uma melhor forma de cuidado pessoal por meio da atenção a si mesmo.

 

Referências

Brinkborg, H., Michanek, J., Hesser, H., & Berglund, G. (2011). Acceptance and commitment therapy for the treatment of stress among social workers: A randomized controlled trial. Behaviour Research and Therapy, 49(6-7), 389-398. https://doi.org/10.1016/j.brat.2011.03.009

Fuller, J. L., & Fitter, E. A. (2020). Mindful parenting: a behavioral tool for parent well-being. Behavior Analysis in Practice, 13, 767-771.   https://doi.org/10.1007/s40617-020-00447-6

Martin, J. R. (1997). Mindfulness: A proposed common factor. Journal of Psychotherapy Integration, 7(4), 291–312. https://doi.org/10.1023/B:JOPI.0000010885.18025.bc

Muñoz-Martínez, A., Monroy-Cifuentes, A., & Torres, L. (2017). Mindfulness: Process, skill or strategy? A behavioral-analytic and functional-contextualistic analysis. Psicologia USP, 28, 298-303. https://doi.org/10.1590/0103-656420160038

Reed, P. (2023). Focused-attention mindfulness increases sensitivity to current schedules of reinforcement. Journal of Experimental Psychology: Animal Learning and Cognition, 49(2), 127–137. https://doi.org/10.1037/xan0000352

Sanzovo, C. É., & Coelho, M. E. C. (2007). Estressores e estratégias de coping em uma amostra de psicólogos clínicos. Estudos de Psicologia (Campinas), 24(2), 351-365. https://doi.org/10.1590/S0103-166X2007000200009

Strapasson, B. A., & Dittrich, A. (2008). O conceito de "prestar atenção" para skinner [The concept of "paying attention" for skinner]. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24(4), 519–526. https://doi.org/10.1590/S0102-37722008000400016.

Torres, N., & Coelho, M. E. C. (2004). O stress, o transtorno do pânico e a psicoterapia: a pessoa e sua vida. In M. Z. Brandão et al. (Orgs.), Sobre comportamento e cognição. Contingências e metacontingências: contextos sócios- -verbais e o comportamento do terapeuta (pp.339-344). ESETec.