quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O Adoecimento causado pela atividade Policial e as possibilidades interventivas da Análise do Comportamento

 


 Fotografia de policial olhando para o lado direito em local de crime isolado para perícia. Disponível em: https://www.pexels.com/pt-br/foto/crime-delito-criminoso-bandido-7101498/

Natalia Rocha de Azevedo

A atividade policial é considerada estressante, de alto e constante risco. Segundo Azevedo (2020), ainda que o policial não esteja em atividades operacionais, são diversos os casos em que, tendo seu trabalho descoberto, ele sofre violências que podem colocar ele e seus familiares em perigo ou levá-los à óbito. Além disso, sua atuação normalmente se dá em ambientes e em momentos conflituosos. As atribuições dos diferentes cargos das forças policiais do país são especificadas por leis, mas no imaginário social, isso tem pouca importância, pois o policial é o responsável por solucionar questões que necessitam ou possam necessitar do uso de força. Costumeiramente, espera-se que ele seja forte, capaz de lidar com todos os seus conflitos, que esteja sempre em condições de atuação e atendimento eficiente das demandas de sua função.

A construção da cultura da carreira policial no imaginário desse profissional também é repleta de idealizações, que podem vir a representar fator importante para futuros problemas psicológicos. Diante disso, temos situações como o excesso de demandas, muitas vezes sem solução a curto prazo, que geram exposição prolongada às violências diversas e questões organizacionais internas. O profissional impotente diante dos fatos pode, após infrutíferas tentativas de autoproteção, lidando com tantos componentes aversivos na rotina laborativa, adoecer.

A atividade policial mudou, pelas mudanças sociais, tecnológicas e pelo perfil exigido para o ingresso nos cargos (e.g., cada vez mais técnico, com formações acadêmicas específicas e menos pautado nos aspectos físicos). O estereótipo do sujeito forte e destemido que tem como atuação principal prevenir a criminalidade, deter criminosos, enviesa e influencia a formação desse profissional para sua atuação nas instituições de segurança pública e em sua convivência interpessoal.

Os estudos referentes à saúde do trabalhador perpassam os mais diversos referenciais teóricos, tanto na Psicologia quanto em outras áreas de conhecimento. Para a Análise do Comportamento, o comportamento humano se dá pela interação de variáveis em três níveis: filogenético, que é a história genética de cada espécie; ontogenético, que é a história da interação do indivíduo com o meio, e o nível cultural, relacionado às interações dos grupos, transmitidas a seus integrantes de geração a geração. As relações entre esses níveis ajudam na manutenção de práticas comportamentais e produtos dessas práticas.

A Análise do Comportamento representa uma possibilidade interventiva, por se mostrar hábil na compreensão e caracterização dos comportamentos envolvidos para a manutenção cultural. Aqui, mais especificamente, considerando a cultura da atividade policial, no intuito de abrir novas discussões e compreensões sobre aspectos relativos à saúde e ao adoecimento na atuação profissional dessa categoria. Além disso, apontar possibilidades de intervenção, inclusive – e especialmente – de forma preventiva, fomentando atuações e ambientes mais alinhados às novas demandas e posturas sociais e menos prejudiciais aos envolvidos.

 

Referência

Azevedo, N. R. (2020). Perícia Criminal Federal e os crimes cibernéticos de cunho sexual contra crianças e adolescentes sob a perspectiva analítico comportamental. Dissertação de Mestrado em Análise do Comportamento, Universidade Estadual de Londrina, Londrina (PR), Brasil.