quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Fair Play: quando os Valores Olímpicos valem mais do que a Vitória


Daiane Zanqueta


My game is Fair Play. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%AAmio_Fair_Play_da_FIFA


Você deve ter ouvido por aí a expressão fair play ou mesmo, visto nos campos de futebol aquelas faixas da FIFA, em azul e amarelo, escrito “My game is fair play”. Mas, você sabe o significado da expressão fair play?

O fair play é conhecido como “jogo limpo” ou jogo justo. Ele foi inserido no esporte por Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos Modernos, no final do século XIX. O Comitê Internacional de Fair Play (CIFP, 2015) caracteriza o fair play como respeito às regras do jogo e ao adversário, espírito de equipe, esporte sem doping, lealdade e entre outros, tidos como valores olímpicos e morais do esporte. Por não ser considerado uma regra do jogo, não há um consenso sobre o que vem a ser o fair play, ainda mais em se tratando das várias e diferentes modalidades esportivas.    

Para a Análise do Comportamento, comportamentos são valorados de maneiras diferentes a depender do contexto ou situação em que ocorrem (Morais et al., 2017). Assim, o fair play não é uma regra universal que descreve as ações corretas ou erradas, e não se trata somente de ações e atitudes que ocorrem entre os atletas, como ajudar o atleta adversário a levantar ou colocar a bola para fora do campo para atendimento de um jogador. Comportamentos de fair play são comportamentos altruístas e genuínos que podem e devem ser exercidos por todos os envolvidos no contexto esportivo.

Quando se fala em esporte, automaticamente a ideia de valores éticos e morais, ou seja, de fair play (ou comportamentos esportivos) é associada. O contexto esportivo é visto, na maioria das vezes, como um espaço para desenvolvimento e aprendizagem de comportamentos caracterizados popularmente como bons e corretos (éticos e morais). No entanto, a maioria das regras no esporte procuram punir o comportamento antiesportivo do atleta e pouco promovem a valorização de comportamentos de fair play ou esportivos (Zanqueta, 2021), isso acaba produzindo confusão... Afinal, como vamos aprender comportamentos de fair play que deveriam ser promovidos se os modelos que temos são de punição? A resposta a essa pergunta pode começar pela reflexão dos exemplos de fair play nos vários âmbitos esportivos, com atletas, pais, árbitros, torcidas e nos e-sports, consecutivamente descritos a seguir, que podem ser usados como modelos de promoção de fair play.

Na Olimpíada de Tóquio 2020, a modalidade esportiva estreante, o skate park, protagonizou uma ação de fair play na final. Na última manobra que definiria a distribuição das medalhas, a então campeã mundial Misugu Okamoto caiu e saiu da pista bem abalada. Ela      foi imediatamente consolada pelas demais finalistas que a cercaram e a abraçaram. A ação empática das finalistas e adversárias de Okamoto fez com que todas elas fossem premiadas com o prêmio de Fair Play das Olimpíadas.

Outro exemplo de fair play ocorreu na esgrima durante as Olimpíadas do Rio 2016. Em um duelo entre o brasileiro Athos Schwantes e o tcheco Jirí Beran, o juiz marcou um ponto a favor do tcheco, deixando-o muito perto da vitória. Jirí Beran, no entanto, foi até o juiz e explicou que não havia tocado no brasileiro. O juiz retirou o ponto e Athos, ganhador da disputa, cumprimentou e pediu para que a torcida aplaudisse o tcheco. Jirí Beran explicou que fez o que aprendeu com o pai, também esgrimista, demonstrando a importância do apoio e incentivo familiar nos comportamentos de fair play.

Continuando com os exemplos de fair play, em uma partida pelo Campeonato Paulista de 2017, em um jogo entre São Paulo e Corinthians, o zagueiro São-paulino, Rodrigo Caio, deu um “pisão” no goleiro do próprio time, mas o árbitro não vê e aplica um cartão amarelo ao atacante corinthiano Jô. Rodrigo Caio vendo o equívoco do árbitro avisa-o que foi ele quem pisou no goleiro e não o jogador adversário. O árbitro voltou atrás e retirou o cartão amarelo aplicado. Esse exemplo de fair play de jogador e árbitro, foi elogiado por órgãos como a CBF e por comentadores esportivos, mas não foi bem-visto pelos torcedores do São Paulo, inclusive pelo próprio capitão do time.

Há também exemplos de fair play entre torcidas, bem como nos e-sports. É o que acontece com as torcidas dos rivais Grêmio e Internacional de Porto Alegre, que desde 2015, reservam uma área mista nos seus estádios, para as torcidas rivais assistirem aos jogos do Grenal juntas. A iniciativa continua dando certo e as torcidas dão um belo exemplo de fair play fora do campo. No caso dos e-sports não é diferente. Alguns jogadores de jogos online como o Dota 2, quando percebem algum problema relacionado com um lag (problemas com a conexão da internet) de um jogador adversário, pausam o jogo para perguntar ou esperar o problema se resolver.

Os exemplos descritos mostram a importância da prática do fair play pelos envolvidos no contexto esportivo. Os atletas, como agentes ativos dentro da competição, podem ser modelos de comportamentos de fair play, assim como é fundamental os pais apoiarem e incentivarem seus filhos a desenvolverem os valores morais do esporte. Não excluindo a importância do árbitro e da torcida colaborarem com essas atitudes e mostrarem que é possível interagir com a torcida adversária, por maior que seja a rivalidade que seus times possam ter. O fair play pode ser uma prática contagiante, mas é preciso ser ensinada e valorizada nos ambientes esportivos.


Referências

CIFP (2015). Internacional Fair Play Committee. [Website]. Recuperado de http://www.fairplayinternational.org/home.

Morais, A. O. de, Melo, C. M. de, & Souza, S. R. de. (2017). Uma análise da ética esportiva a partir do behaviorismo radical. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva18(3), 41–57. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v18i3.921

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Para saber mais sobre o Fair Play

Bosquetti, M.A; Morais, A.O; Altimari, L; Souza, S.R. (2015). Comportamentos de Fair Play e Antiesportivos: avaliação dos árbitros. Revista Perspectivas, vol.06, nº1, pp. 60-73

Morais, A. O. (2014). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: análise do comportamento aplicada à ética esportiva. Dissertação de mestrado (Mestrado em Análise do Comportamento). Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.


terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Como aprendemos a nos autoconhecer?



Verônica Bender Haydu

Luciana Parisi Martins Yamaura

 

Conhecer a si mesmo é muito importante para formação do nosso autoconceito, autovalorização e autoestima. O autoconhecimento consiste em sermos capazes de identificar por que nos comportamos de determinada forma e quais são as consequências das nossas ações. Além disso, autoconhecimento implica em sermos capazes de reconhecer os eventos que ocorrem imediatamente antes dessas ações e os sentimentos e sensações que acompanham as nossas relações com o mundo que nos cerca.

O autoconhecimento é decorrente de um processo de aprendizagem vivenciado durante a infância e ao longo de toda o restante de nossa vida. Os bebês não sabem descrever o que estão sentindo, do que eles gostam ou o que eles estão querendo e isso pode angustiar os pais, principalmente quando há sofrimento envolvido. Assim, é muito importante que eles aprendam a se autoconhecer e a relatar o que sentem.

À medida que os bebês aprendem a falar, devem ser expostos a situações em que lhes é ensinado como nomear o que estão sentindo. “Por exemplo, quando uma criança fica chorando após a sua mãe ter saído de casa. O pai pergunta: Por que você está chorando? Você está triste? É porque a mamãe saiu? Não fica triste, não! Ela volta logo! Um outro exemplo, seria uma situação em que a criança ficou presa no quarto porque o vento fechou a porta. Ela começa a chorar ‘desesperadamente’. A mãe corre para acudi-la e vê que nada de grave aconteceu. Ela então diz: “Não foi nada, meu amor. O vento bateu a porta. A mamãe está aqui! Não precisa ficar com medo!” (Haydu, n.d., p. 1).

Algumas vezes não temos informações do que aconteceu, mas ao observar os comportamentos da criança podemos inferir o que ela está sentindo, a partir de comportamentos colaterais observáveis. Por exemplo, ao ver a criança quieta, não querendo brincar, não sorrindo, com os olhos lacrimejando, podemos perguntar se ela está triste. De forma semelhante, podemos ensinar a identificação e a nomeação das sensações, como a dor, a fome, a sonolência etc. Por exemplo, o pai vê sua filha cair e ao ajudá-la a se levantar vê que ela está mancando. O pai deve perguntar: Tá doendo filhinha? Você machucou sua perninha? Vou colocar um remédio. Vai sarar logo!

Enquanto a situação vivenciada pela criança é descrita, podemos perguntar ou dizer (inferir) o que, provavelmente, ela está sentindo. Com isso, ensinamos à criança o nome da sensação ou sentimento vivenciado por ela. Isso contribui para que ela preste atenção em seus sentimentos e em suas sensações (auto-observação) e se torne capaz de descrevê-los e relacioná-los com as circunstâncias em que ocorrem (autoconhecimento).

O autoconhecimento não ocorre só na infância, trata-se de um processo comportamental que deve ser mantido por toda nossa vida. A dificuldade de se auto-observar e identificar de forma apropriada nossas emoções e o que sentimos, pode gerar problemas de relacionamento em casa, no trabalho e com as nossas amizades. Assim, podemos concluir que a comunidade/sociedade na qual vivemos se beneficia quando temos um autoconhecimento adequado, o que também favorece nosso autoconceito, autovalorização e autoestima.

Referência

Haydu, V. B. (n.d.). Como aprendemos a nos autoconhecer? http://www.uel.br/pessoal/haydu/textos/como_aprendemos_a_nos_autoconhecer.pdf

 Leituras sugeridas:

De Rose, J. C. C. (1999). O relato verbal segundo a perspectiva da análise do comportamento: contribuições conceituais e experimentais. Em R. A. Banaco (Org.) Sobre Comportamento e Cognição. (pp. 148-163). ARBytes. https://itcrcampinas.com.br/pdf/outros/derose.pdf

Souza, A. S. & Abreu-Rodrigues, J. (2007). Autoconhecimento: contribuições da pesquisa básica. Psicologia em Estudo, 12, 141-150. https://www.scielo.br/j/pe/a/77bVDSpqVHMdnBKKxdMR6MN/abstract/?lang=pt 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O Adoecimento causado pela atividade Policial e as possibilidades interventivas da Análise do Comportamento

 


 Fotografia de policial olhando para o lado direito em local de crime isolado para perícia. Disponível em: https://www.pexels.com/pt-br/foto/crime-delito-criminoso-bandido-7101498/

Natalia Rocha de Azevedo

A atividade policial é considerada estressante, de alto e constante risco. Segundo Azevedo (2020), ainda que o policial não esteja em atividades operacionais, são diversos os casos em que, tendo seu trabalho descoberto, ele sofre violências que podem colocar ele e seus familiares em perigo ou levá-los à óbito. Além disso, sua atuação normalmente se dá em ambientes e em momentos conflituosos. As atribuições dos diferentes cargos das forças policiais do país são especificadas por leis, mas no imaginário social, isso tem pouca importância, pois o policial é o responsável por solucionar questões que necessitam ou possam necessitar do uso de força. Costumeiramente, espera-se que ele seja forte, capaz de lidar com todos os seus conflitos, que esteja sempre em condições de atuação e atendimento eficiente das demandas de sua função.

A construção da cultura da carreira policial no imaginário desse profissional também é repleta de idealizações, que podem vir a representar fator importante para futuros problemas psicológicos. Diante disso, temos situações como o excesso de demandas, muitas vezes sem solução a curto prazo, que geram exposição prolongada às violências diversas e questões organizacionais internas. O profissional impotente diante dos fatos pode, após infrutíferas tentativas de autoproteção, lidando com tantos componentes aversivos na rotina laborativa, adoecer.

A atividade policial mudou, pelas mudanças sociais, tecnológicas e pelo perfil exigido para o ingresso nos cargos (e.g., cada vez mais técnico, com formações acadêmicas específicas e menos pautado nos aspectos físicos). O estereótipo do sujeito forte e destemido que tem como atuação principal prevenir a criminalidade, deter criminosos, enviesa e influencia a formação desse profissional para sua atuação nas instituições de segurança pública e em sua convivência interpessoal.

Os estudos referentes à saúde do trabalhador perpassam os mais diversos referenciais teóricos, tanto na Psicologia quanto em outras áreas de conhecimento. Para a Análise do Comportamento, o comportamento humano se dá pela interação de variáveis em três níveis: filogenético, que é a história genética de cada espécie; ontogenético, que é a história da interação do indivíduo com o meio, e o nível cultural, relacionado às interações dos grupos, transmitidas a seus integrantes de geração a geração. As relações entre esses níveis ajudam na manutenção de práticas comportamentais e produtos dessas práticas.

A Análise do Comportamento representa uma possibilidade interventiva, por se mostrar hábil na compreensão e caracterização dos comportamentos envolvidos para a manutenção cultural. Aqui, mais especificamente, considerando a cultura da atividade policial, no intuito de abrir novas discussões e compreensões sobre aspectos relativos à saúde e ao adoecimento na atuação profissional dessa categoria. Além disso, apontar possibilidades de intervenção, inclusive – e especialmente – de forma preventiva, fomentando atuações e ambientes mais alinhados às novas demandas e posturas sociais e menos prejudiciais aos envolvidos.

 

Referência

Azevedo, N. R. (2020). Perícia Criminal Federal e os crimes cibernéticos de cunho sexual contra crianças e adolescentes sob a perspectiva analítico comportamental. Dissertação de Mestrado em Análise do Comportamento, Universidade Estadual de Londrina, Londrina (PR), Brasil.

sábado, 6 de agosto de 2022

Entre Skinner, Lutero e o Black Metal Saudita


Imagem: Logo da banda de Black Metal Saudita intitulada Am-Namrood. Disponível em:
https://de.wikipedia.org/wiki/Al-Namrood#/media/Datei:Al_Namrood_Logo.jpg

 Roberto Salbego Donicht

Rafael Peres Macedo

Thays da Cruz Silva

Verônica Bender Haydu

        A participação em instituições religiosas ou agências controladoras religiosas fazem parte do cotidiano de inúmeras pessoas ao redor do globo. Essas agências controlam o comportamento de inúmeros indivíduos e grupos sociais, influenciando as decisões da sociedade que as compõem. Diante disso, surge o questionamento: há algo a ser feito quando essas instituições religiosas possuem um poder de controle muito grande e/ou quando utilizam esse poder para fins pessoais ou para ganhos de suas instituições?

        Para responder a essa pergunta, podemos retornar ao livro Ciência e Comportamento Humano do analista do comportamento B. F. Skinner (1953/1981). Segundo Skinner, o controle das agências religiosas deriva de uma alegada conexão com o sobrenatural (e.g., Deus, mundo metafísico, paraíso, karma etc.), em que uma das principais técnicas de controle é uma extensão de práticas de controle grupal, ético e/ou governamental, de classificar o que é “certo” e “errado” (e.g., para ter acesso ao paraíso, o certo é X e não Y). No controle religioso, os comportamentos não são simplesmente classificados como “bom/legal” (controle ético) ou “ruim/ilegal” (controle governamental), mas sim como “moral/virtuoso” e “imoral/pecaminoso”. Concomitante a essa classificação, os estímulos reforçadores/punidores utilizados pela a instituição religiosa são muito mais intensos (e.g., o inferno é um local de eterno sofrimento e isso tende a ser mais intenso que a ideia de um sofrimento temporário). Devido a essas características, o controle religioso tende a ser mais poderoso e rígido que o controle governamental, ético ou grupal.

        Embora a influência da agência controladora religiosa possa ser bastante poderosa, ela não é onipotente, onisciente e nem onipresente. A partir do exposto por Skinner (1953/2005), podemos pensar em duas categorias de contracontrole a esse tipo de instituição. A primeira categoria seria quando a agência controladora religiosa é limitada/contracontrolada por fatores/variáveis externos a ela. Por exemplo, na Arábia Saudita, país conhecido por possuir uma agência controladora religiosa bastante influente, existe uma banda de Black Metal denominada “Al-Namrood” (“Os não crentes”, tradução livre) que compõem de modo anônimo diversas músicas contrárias ao excessivo e aversivo controle religioso que ocorre no país.

        O segundo tipo é quando o limite/contracontrole se dá por fatores/variáveis internos a agência controladora religiosa, podendo-se citar como exemplo a história da Reforma Protestante. Martin Lutero era um padre católico que se revoltou contra alguns preceitos do catolicismo da época e então elaborou as 95 teses sobre o que deveria mudar na igreja católica. Tal contracontrole foi denominado de Reforma Protestante, a qual contribuiu para a criação de inúmeras novas agências controladoras religiosa que conhecemos hoje (e.g., Luteranismo, Calvinismo etc.). Note-se que nesse exemplo, o contracontrole ocorreu por um membro da própria agência controladora, o qual ocasionou mudanças na compreensão sobre o papel das agências controladoras religiosas cristãs da época.

        Retornando ao nosso questionamento inicial, percebemos que existe inúmeras formas de contracontrolar de influência religiosa em uma sociedade. Desde atos culturais até reflexões teológicas - as opções são inúmeras e diversas. Logo, a questão a ser respondida não é se “há algo a ser feito” e sim o “que fazer” quando nos deparamos com instituições religiosas (ou econômicas, governamentais etc.) que exercem controle de modo considerado aversivo para a sociedade.

Referência

Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1953).

 


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Histórico de Reforço e Persistência Comportamental: uma visão da Análise do Comportamento sobre o Sunk Cost Effect

Colossal Krater from Altamura, de 350 AEC. (National Archaeological Museum of Naples, 81666. By permission of the Italian Ministry of Heritage and Culture and Tourism. National Archaeological Museum of Naples – Conservation and Restoration Laboratory). Disponível em: https://socientifica.com.br/o-mito-de-sisifo-uma-alegoria-para-o-dia-a-dia-humano/

Thays da Cruz Silva

Rafael Peres Macedo

Roberto Salbego Donicht

Verônica Bender Haydu

Persistir em comportamentos que a princípio não tem sentido, como manter-se em um projeto sem retorno financeiro ou como a condenação ilustrada no Mito de Sísifo (o eterno empurrar de uma enorme pedra), pode parecer inexplicável, misterioso ou místico. No entanto, o comportamento de persistir tem sido foco de investigação científica, como acontece com o fenômeno sunk cost effect. Esse fenômeno foi descrito em outro texto deste Blog, porém, não especificamente numa perspectiva da Análise do Comportamento (AC). As contribuições da AC sobre programas de reforço podem ajudar a explicar o sunk cost effect, de acordo com essa visão.

O termo persistência é sugerido aqui no lugar de sunk cost effect, porque o segundo não é muito bem conceituado na AC (cf. Carreiro, 2007); é necessário avaliar quando a persistência pode ser considerada sunk cost effect. Deve-se destacar que nem todos os casos de persistência são considerados como sendo sunk cost effect.  A persistência comportamental é caracterizada como o persistir em um curso de ação (Luiz, Costa e Cançado, 2019),  tendo sido  apontada como uma forma de resistência à extinção (Goltz, 1992). Assim,  consideramos aqui o termo persistência como variável dependente dentro do fenômeno sunk cost effect. Por isso, é importante entender que variáveis, tais quais o histórico de reforço, podem influenciar a persistência comportamental.

         Em estudos que investigam os efeitos do histórico de reforço, há duas importantes características: o treino em programas e a ocorrência de um período de extinção. Podem ser entendidos como estudos de história de reforço, aqueles em que são observados, em uma fase de teste, os efeitos do responder após a exposição a diferentes condições experimentais, por exemplo programas de reforço distintos (Aló, 2005). Programas de reforço intermitente produzem persistência comportamental durante uma situação de extinção (Carreiro, 2007), o que torna esse tipo de programa variáveis independentes interessantes a serem investigadas em estudos experimentais.

Um desses estudos, desenvolvido por Goltz (1992), consistiu em avaliar os efeitos do histórico de reforço em uma tarefa de gerenciamento monetário fictício. Os participantes tinham $10.000 disponíveis para alocar entre duas alternativas: (a) investir, com possibilidade de ganhos ou perdas;  (b) guardar o dinheiro em um fundo monetário em que não havia possibilidade de ganhar ou perder. A quantia a ser investida a cada escolha variou entre $0 e $10.000 em blocos (incrementos) de $100. Foram realizadas escolhas em condições com possibilidade de diferentes magnitudes de ganhos ou perdas (sinalizadas por uma mensagem) e extinção. Os participantes foram distribuídos entre cinco grupos: um com programação de ganhos em FR (fixed ratio); o segundo em VR (variable ratio); e três grupos em CRF (Continuous Reinforcement), um com pequena magnitude de ganho (+10), o segundo com maior magnitude de ganho (+30) e o terceiro com oito escolhas programadas para ganho (+30) e oito para perda (-10), respectivamente. Os participantes foram informados que ao fim da tarefa deveriam explicar como foi feito o gerenciamento do dinheiro.  Observou-se que os participantes do grupo com ganhos contínuos e de menor magnitude foram os que apresentaram maior redução do investimento em ações. Logo, experimentar reforços de forma intermitente produziu maior persistência comparado à obtenção de reforço a cada resposta.

O estudo de outras variáveis relacionadas a história de reforço, como a magnitude dos ganhos e perdas etc, são importantes para compreensão da persistência comportamental. O histórico de reforço é uma das variáveis que afeta o persistir. Na descrição dos tipos de investimentos estudados no sunk cost effect, além do investimento monetário, há investimentos de tempo e esforço, assim como apontam os estudos da AC sobre Momentum comportamental e autocontrole. Portanto, o estudo da persistência comportamental e das variáveis que a afetam trazem contribuições para compreensão do sunk cost effect. Sugerimos que mais estudos sejam conduzidos e que seja realizada uma sistematização e uma  organização dos estudos desse fenômeno comportamental de acordo com o princípios da AC.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Por que persistir em escolhas que não trazem maiores benefícios?

 



Thays da Cruz Silva

Roberto Salbego Donicht

Rafael Peres Macedo

Verônica Bender Haydu

A vida humana é permeada por situações de escolhas nas quais nem sempre compreendemos os seus porquês. Por exemplo, por que continuar persistindo em um relacionamento mesmo sabendo que é uma cilada? O estudo do fenômeno do sunk cost effect na Economia Comportamental, que é uma área de intersecção entre a Economia e a Psicologia, pode oferecer respostas para dilemas de escolhas como esse, pois se volta para o estudo da relação entre investimentos realizados e o persistir em escolhas. Olha, você já investiu tempo e esforço para ler até aqui! Então, não vai desperdiçar o seu investimento de tempo e esforço desistindo de ler o texto, não é mesmo?

Que bom que você continua lendo! O sunk cost effect ou efeito do custo irrecuperável (Magalhães & White, 2016) ajuda a compreender como investimentos prévios podem influenciar no persistir em escolhas que trazem prejuízos. O sunk cost effect pode ser compreendido como a persistência em um curso de ação (i.e., emissão continuada de uma classe de respostas), ao mesmo tempo em que há outra opção claramente mais benéfica. Uma explicação para essa persistência é que o responder ocorre em função de um investimento prévio de tempo, dinheiro ou esforço. A lógica é que, quanto maior o investimento, mais provável é o persistir. Logo, o comportamento fica mais sob controle de investimentos prévios, em vez das prováveis consequências reforçadoras ou punidoras.

Para compreensão do sunk cost effect, imagine esta situação exposta no estudo de Rego, Arantes e Magalhães (2018): você está casado(a) há 1 ano, mas nos últimos meses está infeliz na relação. Brigas irrelevantes ocorrem o tempo todo e tomam grande proporção, não há abertura para comunicação. Além disso, há meses não mantém relação sexual e seu(sua) cônjuge retarda o retorno para casa. Você acredita que seria mais feliz se não estivesse nesse relacionamento. Quanto tempo mais você investiria nessa relação? E se em vez de 1 ano, fossem 10 anos de relacionamento, sua resposta iria mudar? Na perspectiva do estudo do sunk cost effect, sim!  Diante de um relacionamento de 10 anos é mais provável que ocorra mais persistência em comparação ao relacionamento de 1 ano. O mesmo é válido em situações como aquelas em que se investiu mais esforço (e.g., fazer mudanças radicais na rotina para se adequar à vida do outro) ou dinheiro (e.g., investimentos feitos em imóveis ou empresas).

Na visão da Análise do Comportamento outras variáveis como o histórico de reforço intermitente e momento comportamental, podem estar relacionadas à persistência comportamental (Magalhães & White, 2016; Carreiro, 2007). No entanto, no presente artigo, damos destaque aos investimentos explicarem as situações em que o organismo persiste em escolhas que lhe trazem prejuízos.

O estudo do sunk cost effect contribui para esclarecer situações em que as escolhas em um primeiro momento parecem ser incompreensíveis, por se tratar de um persistir em situações que trazem prejuízos. Logo, entender as variáveis relacionadas à ocorrência do fenômeno do sunk cost effect possibilita formas alternativas de pensar em intervenções diante de dilemas que podem trazer sofrimento aos indivíduos.

 

Carreiro, P. L. (2007). Efeitos da probabilidade de reforçamento e do custo da resposta sobre a persistência comportamental. (Dissertação de Mestrado). Recuperado de https://repositorio.unb.br/handle/10482/3774

Magalhães, P., & White, K. G. (2016). The sunk cost effect across species: A review of persistence in a course of action due to prior investment. Journal of the experimental analysis of behavior, 105(3), 339-361.

Rego, S., Arantes, J., & Magalhães, P. (2018). Is there a sunk cost effect in committed relationships?. Current Psychology, 37(3), 508-519.

 

sábado, 4 de junho de 2022

Ciência e Religião: Fronteiras Instransponíveis?

Imagem: Ilustração da relação entre ciência e religião. 

Roberto Salbego Donicht
Thays da Cruz Silva
Rafael Peres Macedo
Verônica Bender Haydu

           Por muito tempo Religião e Ciência conviviam sem conflitos, nessa época a ciência era chamada de teologia natural ou filosofia natural. Uma das razões para essa harmonia ter surgido veio da argumentação de Tomás de Aquino de que Ciência e Religião possuíam “reinos” distintos de estudo e conhecimento, cada qual instransponível para o outro. O fim dessa paz veio com o advento da Ciência Secular (Século XIX), a qual surgiu das contribuições darwinistas e, principalmente, a profissionalização dos cientistas. A argumentação de Tomás continuou, no entanto, sendo usada agora para justificar a desarmonia entre essas áreas do saber. Diante disso, ficam os seguintes questionamentos: A argumentação de Tomás de Aquino faz sentido? Ciência não deve se meter com Religião e vice-versa?

            Embora, a argumentação apresentada por Tomás de Aquino possa ser considerada desnecessária, ela provavelmente foi um diferencial. Na época de Aquino, um contexto predominante religioso, qualquer argumento que favorece o livre fazer científico era importante. Logo, essa lógica permitiu que os cientistas realizarem suas pesquisas sem terem que discutir constantemente com a religião.

            Em relação a cisão Ciência-Religião, temos algumas respostas na Análise do Comportamento (uma área da ciência) no livro “Religion and Human Behavior”[1] (Schoenfeld, 1993). Para Schoenfeld, a enorme influência religiosa existente no cotidiano dos indivíduos deveria bastar como justificativa para haver maior interesse dos analistas do comportamento em pesquisar esse fenômeno. Segundo Schoenfeld, se Deus falou na língua dos homens, essa língua é comportamento. Ademais, há a ideia de que tanto a religião como a ciência podem ganhar muito com o diálogo mútuo. A compreensão de fenômenos religiosos por uma perspectiva científica pode tanto elucidar problemáticas presentes em nossa sociedade (discussões morais, por exemplo) quanto auxiliar em discussões religiosas, como a compreensão da “língua dos homens” utilizada por Deus.

         Diante do exposto, o argumento de Tomás de Aquino já não é mais justificativa para o afastamento da Análise do Comportamento e da Ciência, como um todo, de um fenômeno tão presente na humanidade como a religião. Atualmente, a Ciência e a Religião são áreas do saber bastante consolidadas em seus respectivos “reinos”, cabendo a elas abrirem as fronteiras para uma discussão proveitosa e frutífera.

Referência

Schoenfeld, W. N. (1993). Religion and Human Behavior. Boston: Authors Cooperative.



[1] O qual é provavelmente o único livro da Análise do Comportamento destinado a estudar exclusivamente o fenômeno religioso.    

quarta-feira, 18 de maio de 2022

On-line com o Planeta

Imagem: Projeto Clube da Caçamba


Rafael Peres Macedo

Thays da Cruz Silva

Roberto Salbego Donicht

Verônica Bender Haydu

Contendas socioambientais têm aumentado desde o século XX. As inquietações sobre as questões ambientais começaram a tomar destaque quando foi notado que as ações do homem sobre o meio ambiente, podem produzir consequências prejudiciais (e.g., mudanças climáticas) que afetam diretamente a qualidade de vida das pessoas. A Internet tem contribuído para o aumento dessas discussões e na disseminação de conteúdo relativos à educação ambiental em blogs, revistas, sites e redes sociais.

O Instagram é uma rede social que no Brasil tem cerca de 99 milhões de usuários ativos que gastam em média 3h30min diários nessa plataforma. Esse número tem chamado atenção de empresas que começaram a utilizar o Instagram como ferramenta de divulgação de produtos, conhecimento, cursos, entre outros. Pensando no crescente uso do Instagram como meio de divulgação, o Projeto Clube da Caçamba, grupo composto por estudantes e professores do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina, fez um perfil nessa plataforma para divulgar conteúdos sobre desenvolvimento sustentável e educação ambiental.

O Projeto Clube da Caçamba apresenta temas sobre educação ambiental, como reciclagem e reutilização de materiais que seriam descartados (e.g., artesanato e utensílios domésticos), por meio de posts, reels e vídeos. A reutilização de materiais é um aspecto importante, pois pode contribuir com a redução de resíduos em nível mundial. Outro aspecto a ser destacado é a forma de descarte de alguns resíduos (e.g., produtos vencidos, cosméticos, vidro quebrado), pois isso afeta diretamente a reciclagem do material. Por exemplo, misturar alguns produtos com reciclados pode tornar a reciclagem inviável. Uma vez que, no planeta, são produzidos cerca de 2 bilhões de toneladas de resíduo por ano, o equivalente a 30 mil estádios de futebol cheios até o topo, a reciclagem é uma estratégia relevante para a redução de resíduos no mundo.

Além das postagens no Instagram, o Projeto Clube da Caçamba promove, ainda, a atualização de sua equipe sobre os conteúdos relativos ao desenvolvimento sustentável e a educação ambiental, e sobre o tipo de postagem que o algoritmo do Instagram disponibiliza para mais pessoas. Assim, é mantida uma constância na quantidade de posts semanais e na diversidade de conteúdo disponibilizados aos seguidores, que podem ser considerados como um grupo que busca informações sobre o desenvolvimento sustentável.

Mudanças comportamentais em pequenos grupos ou contextos podem gerar uma prática cultural, o que é essencial para que se possa falar em desenvolvimento sustentável. Existem diversos projetos semelhantes ao do Clube da Caçamba que divulgam conteúdos relativos ao desenvolvimento sustentável e a educação ambiental. Alguns realizam a intervenção por meio de postagens, outros por meio de blogs e canais no Youtube, e outros, ainda, mediante ações executadas diretamente em contextos ambientais e sociais. Apesar desses projetos começarem e eventualmente se manterem em pequena escala, consideramos que a disseminação de conteúdos educativos é relevante, independente da forma como é feita e de sua extensão.