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quinta-feira, 4 de março de 2021

O feminismo na ciência do comportamento: quem foi Maria del Rosario Ruiz

 

Imagem via Soreth, Dickson e Terry (2017)

Jordana Fontana

    No mês em que celebramos o dia internacional das mulheres e meninas na ciência, é justo também discutirmos grandes nomes de cientistas do campo da análise do comportamento. A filosofia comportamentalista, que desde os primórdios se preocupou com a construção de uma sociedade melhor, não poderia deixar de lado discussões sobre igualdade entre gêneros e feminismo. No entanto, o comportamentalismo só aderiu essa linha de pesquisas devido à influência de Maria del Rosario Ruiz.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Mulheres e sociedade: o problema da saúde mental


             

Jordana Fontana

        Muito já se ouviu falar sobre a mulher ser o sexo frágil, inclusive no que se refere a doenças psicológicas. Dados da Organização Mundial de Saúde (em inglês, WHO, 2001) demonstram que mulheres têm mais chance de desenvolver transtornos psicológicos, principalmente depressão e ansiedade. Qual o motivo dessa diferença? Seria a mulher biologicamente ou essencialmente mais propensa a ter mais problemas de saúde mental? Alguns estudos da psicologia, em especial da análise do comportamento, têm demonstrado que os problemas de saúde da mulher são uma consequência da nossa sociedade, constituída por práticas que oprimem as mulheres.
        A cultura em que vivemos é caracterizada pela desigualdade entre gêneros – isso não significa uma simples diferença, mas sim que um gênero se beneficia em detrimento do outro: homens são maioria em posições de poder e têm mais acesso a benefícios, ficando as mulheres com menos oportunidades de emprego, salários mais baixos, trabalhos de menor prestígio e condições financeiras mais precárias. Mulheres aprendem que certas coisas são tarefas “de homem”, e que elas não têm capacidade para fazer tais coisas. Falar que algo é “de mulher” é uma expressão comumente utilizada em tom pejorativo, e, portanto, o feminino é visto como inferior. Mulheres são menos respeitadas e sua capacidade intelectual é comumente colocada em cheque. Além disso, sofrem diariamente diversas formas de assédio e violência, que muitas vezes chegam ao extremo, no caso do feminicídio (Fontana, 2019). 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O compromisso social da análise do comportamento: relevância da aproximação com o feminismo



Jordana Fontana
Verônica Bender Haydu

            O termo feminismo é impregnado de uma pluralidade de significados e interpretações, de acordo com as diferentes correntes feministas e pontos de vista a respeito do assunto. Em termos gerais, pode ser definido como uma teoria política ou um movimento social que analisa as relações sociais voltadas ao gênero, buscando transformar práticas de dominação e opressão que favorecem homens em detrimento de mulheres. Tem como objetivo a resistência à dominação masculina, a luta pela liberdade feminina e a igualdade de direitos entre gêneros. Em termos analítico-comportamentais, o feminismo pode ser compreendido como uma forma de contracontrole em oposição a práticas de opressão, tendo como objetivo modificar contingências sociais de dominação masculina. A análise do comportamento é uma ciência que demonstra clara preocupação com questões sociais, o que pode ser estendido para a discussão de gênero. Skinner atentou em várias de suas obras para a construção de uma sociedade mais justa, com pessoas livres de qualquer forma de controle opressivo, portanto, uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo pode contribuir para a realização de diversas ações enriquecedoras das práticas da ciência do comportamento.
Por muito tempo, os analistas do comportamento se mantiveram afastados de discussões referentes à questão de gênero, tendo recebido críticas pelo androcentrismo presente em suas teorias e pela incompatibilidade com ações que visem à equidade de gênero. Dentre os vários aspectos criticados, está o foco de suas pesquisas no comportamento individual em vez do grupal. Além disso, os próprios analistas do comportamento muitas vezes se comportam de forma a contribui para a perpetuação do discurso dominante. Por muitos anos as mulheres têm sido excluídas da esfera pública e da ciência de forma geral (Schiebinger, 2001). Conforme apontou Couto (2017), recorrentemente, mulheres ficam em posições menos valorizadas do que homens em cargos, associações; recebem menos convites para eventos e há disparidades em pesquisas e publicações.
Maria del Rosario Ruiz (Ruiz, 1995, 1998), feminista e analista do comportamento, produziu diversos artigos argumentando ser possível uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo, pois existem convergências no que diz respeito à visão sobre o processo de como são constituídas as relações de dominação masculina na sociedade. As duas teorias são contrárias ao reducionismo biológico e a visão essencialista na determinação do que é feminino e masculino e, portanto, rejeitam esses fatores como justificativa da desigualdade de gênero. Ao contrário, conforme Ruiz, os papéis atribuídos a cada gênero na sociedade são construídos por meio de práticas culturais e, por isso, há possibilidade de mudanças.
Diante do exposto e tendo em vista a preocupação social da análise do comportamento, sua aproximação com o feminismo pode auxiliar na proposição de intervenções que visem a mudança dessas práticas, bem como discutir a participação das mulheres na ciência, possibilitando que elas tenham destaque e sejam mais ouvidas no processo de construção do conhecimento. A análise do comportamento tem muito a contribuir em questões sociais e de gênero, e a influência de mulheres feministas adeptas a essa teoria e ações feministas como forma de contracontrole podem ser um caminho que essa iniciando sua trajetória. A área de planejamento cultural está em crescimento e pode se beneficiar dessa aproximação. Discussões feministas podem ajudar a dar maior visibilidade para essas pesquisas e incitar maior propagação desse tipo de trabalho.
           
Referências
Couto, A. G. (2017). Uma análise Behaviorista Radical da discussão feminista sobre o empoderamento da mulher. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba). Recuperado de https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/52567/R%20-%20D%20-%20ALINE%20GUIMARAES%20COUTO.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
Ruiz, M. R. (1995). B. F. Skinner’s Radical Behaviorism: Historical misconstructions and grounds for feminist reconstructions. Behavioral and Social Issues, 19(2), 161-179.
Ruiz, M. R. (1998). Personal agency in feminist theory: Evicting the illusive dweller. The Behavior Analyst, 21, 179-192.
Schiebinger, L. (2001). O feminismo mudou a ciência? Bauru, SP: EDUSC. (Original publicado em 1999).