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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Fair Play: quando os Valores Olímpicos valem mais do que a Vitória


Daiane Zanqueta


My game is Fair Play. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%AAmio_Fair_Play_da_FIFA


Você deve ter ouvido por aí a expressão fair play ou mesmo, visto nos campos de futebol aquelas faixas da FIFA, em azul e amarelo, escrito “My game is fair play”. Mas, você sabe o significado da expressão fair play?

O fair play é conhecido como “jogo limpo” ou jogo justo. Ele foi inserido no esporte por Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos Modernos, no final do século XIX. O Comitê Internacional de Fair Play (CIFP, 2015) caracteriza o fair play como respeito às regras do jogo e ao adversário, espírito de equipe, esporte sem doping, lealdade e entre outros, tidos como valores olímpicos e morais do esporte. Por não ser considerado uma regra do jogo, não há um consenso sobre o que vem a ser o fair play, ainda mais em se tratando das várias e diferentes modalidades esportivas.    

Para a Análise do Comportamento, comportamentos são valorados de maneiras diferentes a depender do contexto ou situação em que ocorrem (Morais et al., 2017). Assim, o fair play não é uma regra universal que descreve as ações corretas ou erradas, e não se trata somente de ações e atitudes que ocorrem entre os atletas, como ajudar o atleta adversário a levantar ou colocar a bola para fora do campo para atendimento de um jogador. Comportamentos de fair play são comportamentos altruístas e genuínos que podem e devem ser exercidos por todos os envolvidos no contexto esportivo.

Quando se fala em esporte, automaticamente a ideia de valores éticos e morais, ou seja, de fair play (ou comportamentos esportivos) é associada. O contexto esportivo é visto, na maioria das vezes, como um espaço para desenvolvimento e aprendizagem de comportamentos caracterizados popularmente como bons e corretos (éticos e morais). No entanto, a maioria das regras no esporte procuram punir o comportamento antiesportivo do atleta e pouco promovem a valorização de comportamentos de fair play ou esportivos (Zanqueta, 2021), isso acaba produzindo confusão... Afinal, como vamos aprender comportamentos de fair play que deveriam ser promovidos se os modelos que temos são de punição? A resposta a essa pergunta pode começar pela reflexão dos exemplos de fair play nos vários âmbitos esportivos, com atletas, pais, árbitros, torcidas e nos e-sports, consecutivamente descritos a seguir, que podem ser usados como modelos de promoção de fair play.

Na Olimpíada de Tóquio 2020, a modalidade esportiva estreante, o skate park, protagonizou uma ação de fair play na final. Na última manobra que definiria a distribuição das medalhas, a então campeã mundial Misugu Okamoto caiu e saiu da pista bem abalada. Ela      foi imediatamente consolada pelas demais finalistas que a cercaram e a abraçaram. A ação empática das finalistas e adversárias de Okamoto fez com que todas elas fossem premiadas com o prêmio de Fair Play das Olimpíadas.

Outro exemplo de fair play ocorreu na esgrima durante as Olimpíadas do Rio 2016. Em um duelo entre o brasileiro Athos Schwantes e o tcheco Jirí Beran, o juiz marcou um ponto a favor do tcheco, deixando-o muito perto da vitória. Jirí Beran, no entanto, foi até o juiz e explicou que não havia tocado no brasileiro. O juiz retirou o ponto e Athos, ganhador da disputa, cumprimentou e pediu para que a torcida aplaudisse o tcheco. Jirí Beran explicou que fez o que aprendeu com o pai, também esgrimista, demonstrando a importância do apoio e incentivo familiar nos comportamentos de fair play.

Continuando com os exemplos de fair play, em uma partida pelo Campeonato Paulista de 2017, em um jogo entre São Paulo e Corinthians, o zagueiro São-paulino, Rodrigo Caio, deu um “pisão” no goleiro do próprio time, mas o árbitro não vê e aplica um cartão amarelo ao atacante corinthiano Jô. Rodrigo Caio vendo o equívoco do árbitro avisa-o que foi ele quem pisou no goleiro e não o jogador adversário. O árbitro voltou atrás e retirou o cartão amarelo aplicado. Esse exemplo de fair play de jogador e árbitro, foi elogiado por órgãos como a CBF e por comentadores esportivos, mas não foi bem-visto pelos torcedores do São Paulo, inclusive pelo próprio capitão do time.

Há também exemplos de fair play entre torcidas, bem como nos e-sports. É o que acontece com as torcidas dos rivais Grêmio e Internacional de Porto Alegre, que desde 2015, reservam uma área mista nos seus estádios, para as torcidas rivais assistirem aos jogos do Grenal juntas. A iniciativa continua dando certo e as torcidas dão um belo exemplo de fair play fora do campo. No caso dos e-sports não é diferente. Alguns jogadores de jogos online como o Dota 2, quando percebem algum problema relacionado com um lag (problemas com a conexão da internet) de um jogador adversário, pausam o jogo para perguntar ou esperar o problema se resolver.

Os exemplos descritos mostram a importância da prática do fair play pelos envolvidos no contexto esportivo. Os atletas, como agentes ativos dentro da competição, podem ser modelos de comportamentos de fair play, assim como é fundamental os pais apoiarem e incentivarem seus filhos a desenvolverem os valores morais do esporte. Não excluindo a importância do árbitro e da torcida colaborarem com essas atitudes e mostrarem que é possível interagir com a torcida adversária, por maior que seja a rivalidade que seus times possam ter. O fair play pode ser uma prática contagiante, mas é preciso ser ensinada e valorizada nos ambientes esportivos.


Referências

CIFP (2015). Internacional Fair Play Committee. [Website]. Recuperado de http://www.fairplayinternational.org/home.

Morais, A. O. de, Melo, C. M. de, & Souza, S. R. de. (2017). Uma análise da ética esportiva a partir do behaviorismo radical. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva, 18(3), 41–57. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v18i3.921

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Para saber mais sobre o Fair Play

Bosquetti, M.A; Morais, A.O; Altimari, L; Souza, S.R. (2015). Comportamentos de Fair Play e Antiesportivos: avaliação dos árbitros. Revista Perspectivas, vol.06, nº1, pp. 60-73

Morais, A. O. (2014). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: análise do comportamento aplicada à ética esportiva. Dissertação de mestrado (Mestrado em Análise do Comportamento). Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.


sábado, 6 de agosto de 2022

Entre Skinner, Lutero e o Black Metal Saudita


Imagem: Logo da banda de Black Metal Saudita intitulada Am-Namrood. Disponível em:
https://de.wikipedia.org/wiki/Al-Namrood#/media/Datei:Al_Namrood_Logo.jpg

 Roberto Salbego Donicht

Rafael Peres Macedo

Thays da Cruz Silva

Verônica Bender Haydu

        A participação em instituições religiosas ou agências controladoras religiosas fazem parte do cotidiano de inúmeras pessoas ao redor do globo. Essas agências controlam o comportamento de inúmeros indivíduos e grupos sociais, influenciando as decisões da sociedade que as compõem. Diante disso, surge o questionamento: há algo a ser feito quando essas instituições religiosas possuem um poder de controle muito grande e/ou quando utilizam esse poder para fins pessoais ou para ganhos de suas instituições?

        Para responder a essa pergunta, podemos retornar ao livro Ciência e Comportamento Humano do analista do comportamento B. F. Skinner (1953/1981). Segundo Skinner, o controle das agências religiosas deriva de uma alegada conexão com o sobrenatural (e.g., Deus, mundo metafísico, paraíso, karma etc.), em que uma das principais técnicas de controle é uma extensão de práticas de controle grupal, ético e/ou governamental, de classificar o que é “certo” e “errado” (e.g., para ter acesso ao paraíso, o certo é X e não Y). No controle religioso, os comportamentos não são simplesmente classificados como “bom/legal” (controle ético) ou “ruim/ilegal” (controle governamental), mas sim como “moral/virtuoso” e “imoral/pecaminoso”. Concomitante a essa classificação, os estímulos reforçadores/punidores utilizados pela a instituição religiosa são muito mais intensos (e.g., o inferno é um local de eterno sofrimento e isso tende a ser mais intenso que a ideia de um sofrimento temporário). Devido a essas características, o controle religioso tende a ser mais poderoso e rígido que o controle governamental, ético ou grupal.

        Embora a influência da agência controladora religiosa possa ser bastante poderosa, ela não é onipotente, onisciente e nem onipresente. A partir do exposto por Skinner (1953/2005), podemos pensar em duas categorias de contracontrole a esse tipo de instituição. A primeira categoria seria quando a agência controladora religiosa é limitada/contracontrolada por fatores/variáveis externos a ela. Por exemplo, na Arábia Saudita, país conhecido por possuir uma agência controladora religiosa bastante influente, existe uma banda de Black Metal denominada “Al-Namrood” (“Os não crentes”, tradução livre) que compõem de modo anônimo diversas músicas contrárias ao excessivo e aversivo controle religioso que ocorre no país.

        O segundo tipo é quando o limite/contracontrole se dá por fatores/variáveis internos a agência controladora religiosa, podendo-se citar como exemplo a história da Reforma Protestante. Martin Lutero era um padre católico que se revoltou contra alguns preceitos do catolicismo da época e então elaborou as 95 teses sobre o que deveria mudar na igreja católica. Tal contracontrole foi denominado de Reforma Protestante, a qual contribuiu para a criação de inúmeras novas agências controladoras religiosa que conhecemos hoje (e.g., Luteranismo, Calvinismo etc.). Note-se que nesse exemplo, o contracontrole ocorreu por um membro da própria agência controladora, o qual ocasionou mudanças na compreensão sobre o papel das agências controladoras religiosas cristãs da época.

        Retornando ao nosso questionamento inicial, percebemos que existe inúmeras formas de contracontrolar de influência religiosa em uma sociedade. Desde atos culturais até reflexões teológicas - as opções são inúmeras e diversas. Logo, a questão a ser respondida não é se “há algo a ser feito” e sim o “que fazer” quando nos deparamos com instituições religiosas (ou econômicas, governamentais etc.) que exercem controle de modo considerado aversivo para a sociedade.

Referência

Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1953).

 


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Histórico de Reforço e Persistência Comportamental: uma visão da Análise do Comportamento sobre o Sunk Cost Effect

Colossal Krater from Altamura, de 350 AEC. (National Archaeological Museum of Naples, 81666. By permission of the Italian Ministry of Heritage and Culture and Tourism. National Archaeological Museum of Naples – Conservation and Restoration Laboratory). Disponível em: https://socientifica.com.br/o-mito-de-sisifo-uma-alegoria-para-o-dia-a-dia-humano/

Thays da Cruz Silva

Rafael Peres Macedo

Roberto Salbego Donicht

Verônica Bender Haydu

Persistir em comportamentos que a princípio não tem sentido, como manter-se em um projeto sem retorno financeiro ou como a condenação ilustrada no Mito de Sísifo (o eterno empurrar de uma enorme pedra), pode parecer inexplicável, misterioso ou místico. No entanto, o comportamento de persistir tem sido foco de investigação científica, como acontece com o fenômeno sunk cost effect. Esse fenômeno foi descrito em outro texto deste Blog, porém, não especificamente numa perspectiva da Análise do Comportamento (AC). As contribuições da AC sobre programas de reforço podem ajudar a explicar o sunk cost effect, de acordo com essa visão.

O termo persistência é sugerido aqui no lugar de sunk cost effect, porque o segundo não é muito bem conceituado na AC (cf. Carreiro, 2007); é necessário avaliar quando a persistência pode ser considerada sunk cost effect. Deve-se destacar que nem todos os casos de persistência são considerados como sendo sunk cost effect.  A persistência comportamental é caracterizada como o persistir em um curso de ação (Luiz, Costa e Cançado, 2019),  tendo sido  apontada como uma forma de resistência à extinção (Goltz, 1992). Assim,  consideramos aqui o termo persistência como variável dependente dentro do fenômeno sunk cost effect. Por isso, é importante entender que variáveis, tais quais o histórico de reforço, podem influenciar a persistência comportamental.

         Em estudos que investigam os efeitos do histórico de reforço, há duas importantes características: o treino em programas e a ocorrência de um período de extinção. Podem ser entendidos como estudos de história de reforço, aqueles em que são observados, em uma fase de teste, os efeitos do responder após a exposição a diferentes condições experimentais, por exemplo programas de reforço distintos (Aló, 2005). Programas de reforço intermitente produzem persistência comportamental durante uma situação de extinção (Carreiro, 2007), o que torna esse tipo de programa variáveis independentes interessantes a serem investigadas em estudos experimentais.

Um desses estudos, desenvolvido por Goltz (1992), consistiu em avaliar os efeitos do histórico de reforço em uma tarefa de gerenciamento monetário fictício. Os participantes tinham $10.000 disponíveis para alocar entre duas alternativas: (a) investir, com possibilidade de ganhos ou perdas;  (b) guardar o dinheiro em um fundo monetário em que não havia possibilidade de ganhar ou perder. A quantia a ser investida a cada escolha variou entre $0 e $10.000 em blocos (incrementos) de $100. Foram realizadas escolhas em condições com possibilidade de diferentes magnitudes de ganhos ou perdas (sinalizadas por uma mensagem) e extinção. Os participantes foram distribuídos entre cinco grupos: um com programação de ganhos em FR (fixed ratio); o segundo em VR (variable ratio); e três grupos em CRF (Continuous Reinforcement), um com pequena magnitude de ganho (+10), o segundo com maior magnitude de ganho (+30) e o terceiro com oito escolhas programadas para ganho (+30) e oito para perda (-10), respectivamente. Os participantes foram informados que ao fim da tarefa deveriam explicar como foi feito o gerenciamento do dinheiro.  Observou-se que os participantes do grupo com ganhos contínuos e de menor magnitude foram os que apresentaram maior redução do investimento em ações. Logo, experimentar reforços de forma intermitente produziu maior persistência comparado à obtenção de reforço a cada resposta.

O estudo de outras variáveis relacionadas a história de reforço, como a magnitude dos ganhos e perdas etc, são importantes para compreensão da persistência comportamental. O histórico de reforço é uma das variáveis que afeta o persistir. Na descrição dos tipos de investimentos estudados no sunk cost effect, além do investimento monetário, há investimentos de tempo e esforço, assim como apontam os estudos da AC sobre Momentum comportamental e autocontrole. Portanto, o estudo da persistência comportamental e das variáveis que a afetam trazem contribuições para compreensão do sunk cost effect. Sugerimos que mais estudos sejam conduzidos e que seja realizada uma sistematização e uma  organização dos estudos desse fenômeno comportamental de acordo com o princípios da AC.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Por que persistir em escolhas que não trazem maiores benefícios?

 



Thays da Cruz Silva

Roberto Salbego Donicht

Rafael Peres Macedo

Verônica Bender Haydu

A vida humana é permeada por situações de escolhas nas quais nem sempre compreendemos os seus porquês. Por exemplo, por que continuar persistindo em um relacionamento mesmo sabendo que é uma cilada? O estudo do fenômeno do sunk cost effect na Economia Comportamental, que é uma área de intersecção entre a Economia e a Psicologia, pode oferecer respostas para dilemas de escolhas como esse, pois se volta para o estudo da relação entre investimentos realizados e o persistir em escolhas. Olha, você já investiu tempo e esforço para ler até aqui! Então, não vai desperdiçar o seu investimento de tempo e esforço desistindo de ler o texto, não é mesmo?

Que bom que você continua lendo! O sunk cost effect ou efeito do custo irrecuperável (Magalhães & White, 2016) ajuda a compreender como investimentos prévios podem influenciar no persistir em escolhas que trazem prejuízos. O sunk cost effect pode ser compreendido como a persistência em um curso de ação (i.e., emissão continuada de uma classe de respostas), ao mesmo tempo em que há outra opção claramente mais benéfica. Uma explicação para essa persistência é que o responder ocorre em função de um investimento prévio de tempo, dinheiro ou esforço. A lógica é que, quanto maior o investimento, mais provável é o persistir. Logo, o comportamento fica mais sob controle de investimentos prévios, em vez das prováveis consequências reforçadoras ou punidoras.

Para compreensão do sunk cost effect, imagine esta situação exposta no estudo de Rego, Arantes e Magalhães (2018): você está casado(a) há 1 ano, mas nos últimos meses está infeliz na relação. Brigas irrelevantes ocorrem o tempo todo e tomam grande proporção, não há abertura para comunicação. Além disso, há meses não mantém relação sexual e seu(sua) cônjuge retarda o retorno para casa. Você acredita que seria mais feliz se não estivesse nesse relacionamento. Quanto tempo mais você investiria nessa relação? E se em vez de 1 ano, fossem 10 anos de relacionamento, sua resposta iria mudar? Na perspectiva do estudo do sunk cost effect, sim!  Diante de um relacionamento de 10 anos é mais provável que ocorra mais persistência em comparação ao relacionamento de 1 ano. O mesmo é válido em situações como aquelas em que se investiu mais esforço (e.g., fazer mudanças radicais na rotina para se adequar à vida do outro) ou dinheiro (e.g., investimentos feitos em imóveis ou empresas).

Na visão da Análise do Comportamento outras variáveis como o histórico de reforço intermitente e momento comportamental, podem estar relacionadas à persistência comportamental (Magalhães & White, 2016; Carreiro, 2007). No entanto, no presente artigo, damos destaque aos investimentos explicarem as situações em que o organismo persiste em escolhas que lhe trazem prejuízos.

O estudo do sunk cost effect contribui para esclarecer situações em que as escolhas em um primeiro momento parecem ser incompreensíveis, por se tratar de um persistir em situações que trazem prejuízos. Logo, entender as variáveis relacionadas à ocorrência do fenômeno do sunk cost effect possibilita formas alternativas de pensar em intervenções diante de dilemas que podem trazer sofrimento aos indivíduos.

 

Carreiro, P. L. (2007). Efeitos da probabilidade de reforçamento e do custo da resposta sobre a persistência comportamental. (Dissertação de Mestrado). Recuperado de https://repositorio.unb.br/handle/10482/3774

Magalhães, P., & White, K. G. (2016). The sunk cost effect across species: A review of persistence in a course of action due to prior investment. Journal of the experimental analysis of behavior, 105(3), 339-361.

Rego, S., Arantes, J., & Magalhães, P. (2018). Is there a sunk cost effect in committed relationships?. Current Psychology, 37(3), 508-519.

 

sábado, 4 de junho de 2022

Ciência e Religião: Fronteiras Instransponíveis?

Imagem: Ilustração da relação entre ciência e religião. 

Roberto Salbego Donicht
Thays da Cruz Silva
Rafael Peres Macedo
Verônica Bender Haydu

           Por muito tempo Religião e Ciência conviviam sem conflitos, nessa época a ciência era chamada de teologia natural ou filosofia natural. Uma das razões para essa harmonia ter surgido veio da argumentação de Tomás de Aquino de que Ciência e Religião possuíam “reinos” distintos de estudo e conhecimento, cada qual instransponível para o outro. O fim dessa paz veio com o advento da Ciência Secular (Século XIX), a qual surgiu das contribuições darwinistas e, principalmente, a profissionalização dos cientistas. A argumentação de Tomás continuou, no entanto, sendo usada agora para justificar a desarmonia entre essas áreas do saber. Diante disso, ficam os seguintes questionamentos: A argumentação de Tomás de Aquino faz sentido? Ciência não deve se meter com Religião e vice-versa?

            Embora, a argumentação apresentada por Tomás de Aquino possa ser considerada desnecessária, ela provavelmente foi um diferencial. Na época de Aquino, um contexto predominante religioso, qualquer argumento que favorece o livre fazer científico era importante. Logo, essa lógica permitiu que os cientistas realizarem suas pesquisas sem terem que discutir constantemente com a religião.

            Em relação a cisão Ciência-Religião, temos algumas respostas na Análise do Comportamento (uma área da ciência) no livro “Religion and Human Behavior”[1] (Schoenfeld, 1993). Para Schoenfeld, a enorme influência religiosa existente no cotidiano dos indivíduos deveria bastar como justificativa para haver maior interesse dos analistas do comportamento em pesquisar esse fenômeno. Segundo Schoenfeld, se Deus falou na língua dos homens, essa língua é comportamento. Ademais, há a ideia de que tanto a religião como a ciência podem ganhar muito com o diálogo mútuo. A compreensão de fenômenos religiosos por uma perspectiva científica pode tanto elucidar problemáticas presentes em nossa sociedade (discussões morais, por exemplo) quanto auxiliar em discussões religiosas, como a compreensão da “língua dos homens” utilizada por Deus.

         Diante do exposto, o argumento de Tomás de Aquino já não é mais justificativa para o afastamento da Análise do Comportamento e da Ciência, como um todo, de um fenômeno tão presente na humanidade como a religião. Atualmente, a Ciência e a Religião são áreas do saber bastante consolidadas em seus respectivos “reinos”, cabendo a elas abrirem as fronteiras para uma discussão proveitosa e frutífera.

Referência

Schoenfeld, W. N. (1993). Religion and Human Behavior. Boston: Authors Cooperative.



[1] O qual é provavelmente o único livro da Análise do Comportamento destinado a estudar exclusivamente o fenômeno religioso.    

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Faça Ciência como uma garota!

 

Wilson Beraldo e Carolina Bori, durante reunião do Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência em 1989 (Folha de São Paulo, 22/03/1989, Caderno 8)

Fernanda Torres Sahão
Valquiria Maria Gonçalves

    No dia 11 de fevereiro comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Criada pela ONU em 2015, a data tem como objetivo honrar nomes de cientistas mulheres que fizeram história, além de inspirar e engajar outras meninas a seguirem na área, bem como evidenciar o debate sobre a desigualdade de gênero que também ocorre na área científica. Aproveitando a celebração da data, em 2019, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) criou o Prêmio “Carolina Bori Ciência & Mulher” para homenagear as cientistas brasileiras e incentivar as futuras cientistas do país. O prêmio recebe o nome de Carolina Bori em homenagem à primeira mulher presidente da SBPC e à sua notória contribuição para o desenvolvimento científico brasileiro.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Orgulho LGBT e o papel social e científico dos analistas do comportamento


Leandro Herkert Fazzano

O mês de junho é conhecido como o mês do Orgulho LGBT. Muito provavelmente, você deve ter notado que, ao longo desse mês, diversas empresas estamparam em seus logotipos um arco-íris, que representa a bandeira do movimento LGBT. Ou então, pode ter visto alguns filtros ou postagens em redes sociais falando sobre o mês do Orgulho. A grosso modo, a importância de ter uma celebração do Orgulho LGBT se dá pela necessidade de visibilidade desta população negligenciada e oprimida socialmente.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Ano novo, hábitos velhos: como definir objetivos e conseguir alcançá-los?



Fernanda Torres Sahão

         Ah, o final do ano chegou! Férias, confraternizações, descanso e... frustração? Muitas pessoas acabam se sentindo decepcionadas com elas mesmas por não conseguirem cumprir os objetivos que definiram para o ano que se passou, e se esquecem de olhar para tudo que conseguiram realizar. Por que isso acontece? Por que é tão difícil alcançar nossos objetivos? Muitas vezes o problema está na definição desses objetivos: inicialmente, pensamos muito em como cumpri-los, mas não temos esse cuidado na hora de defini-los. Será que é possível definir objetivos passíveis de serem alcançados? Já adianto que sim!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O compromisso social da análise do comportamento: relevância da aproximação com o feminismo



Jordana Fontana
Verônica Bender Haydu

            O termo feminismo é impregnado de uma pluralidade de significados e interpretações, de acordo com as diferentes correntes feministas e pontos de vista a respeito do assunto. Em termos gerais, pode ser definido como uma teoria política ou um movimento social que analisa as relações sociais voltadas ao gênero, buscando transformar práticas de dominação e opressão que favorecem homens em detrimento de mulheres. Tem como objetivo a resistência à dominação masculina, a luta pela liberdade feminina e a igualdade de direitos entre gêneros. Em termos analítico-comportamentais, o feminismo pode ser compreendido como uma forma de contracontrole em oposição a práticas de opressão, tendo como objetivo modificar contingências sociais de dominação masculina. A análise do comportamento é uma ciência que demonstra clara preocupação com questões sociais, o que pode ser estendido para a discussão de gênero. Skinner atentou em várias de suas obras para a construção de uma sociedade mais justa, com pessoas livres de qualquer forma de controle opressivo, portanto, uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo pode contribuir para a realização de diversas ações enriquecedoras das práticas da ciência do comportamento.
Por muito tempo, os analistas do comportamento se mantiveram afastados de discussões referentes à questão de gênero, tendo recebido críticas pelo androcentrismo presente em suas teorias e pela incompatibilidade com ações que visem à equidade de gênero. Dentre os vários aspectos criticados, está o foco de suas pesquisas no comportamento individual em vez do grupal. Além disso, os próprios analistas do comportamento muitas vezes se comportam de forma a contribui para a perpetuação do discurso dominante. Por muitos anos as mulheres têm sido excluídas da esfera pública e da ciência de forma geral (Schiebinger, 2001). Conforme apontou Couto (2017), recorrentemente, mulheres ficam em posições menos valorizadas do que homens em cargos, associações; recebem menos convites para eventos e há disparidades em pesquisas e publicações.
Maria del Rosario Ruiz (Ruiz, 1995, 1998), feminista e analista do comportamento, produziu diversos artigos argumentando ser possível uma aproximação entre a análise do comportamento e o feminismo, pois existem convergências no que diz respeito à visão sobre o processo de como são constituídas as relações de dominação masculina na sociedade. As duas teorias são contrárias ao reducionismo biológico e a visão essencialista na determinação do que é feminino e masculino e, portanto, rejeitam esses fatores como justificativa da desigualdade de gênero. Ao contrário, conforme Ruiz, os papéis atribuídos a cada gênero na sociedade são construídos por meio de práticas culturais e, por isso, há possibilidade de mudanças.
Diante do exposto e tendo em vista a preocupação social da análise do comportamento, sua aproximação com o feminismo pode auxiliar na proposição de intervenções que visem a mudança dessas práticas, bem como discutir a participação das mulheres na ciência, possibilitando que elas tenham destaque e sejam mais ouvidas no processo de construção do conhecimento. A análise do comportamento tem muito a contribuir em questões sociais e de gênero, e a influência de mulheres feministas adeptas a essa teoria e ações feministas como forma de contracontrole podem ser um caminho que essa iniciando sua trajetória. A área de planejamento cultural está em crescimento e pode se beneficiar dessa aproximação. Discussões feministas podem ajudar a dar maior visibilidade para essas pesquisas e incitar maior propagação desse tipo de trabalho.
           
Referências
Couto, A. G. (2017). Uma análise Behaviorista Radical da discussão feminista sobre o empoderamento da mulher. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba). Recuperado de https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/52567/R%20-%20D%20-%20ALINE%20GUIMARAES%20COUTO.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
Ruiz, M. R. (1995). B. F. Skinner’s Radical Behaviorism: Historical misconstructions and grounds for feminist reconstructions. Behavioral and Social Issues, 19(2), 161-179.
Ruiz, M. R. (1998). Personal agency in feminist theory: Evicting the illusive dweller. The Behavior Analyst, 21, 179-192.
Schiebinger, L. (2001). O feminismo mudou a ciência? Bauru, SP: EDUSC. (Original publicado em 1999).


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O que você precisa saber sobre a depressão



Andresa Gabriele Bibiano
Verônica Bender Haydu

            Alguma vez você já se sentiu muito triste, desmotivado e sem energia, ou observou alguém que estava se sentindo assim e logo pensou que você ou aquela pessoa poderiam estar sofrendo de depressão? Sua preocupação não é absurda, pois depressão é assunto sério! Já nomeada “o mal do século”, a depressão tem apresentado índices alarmantes entre a população brasileira e mundial. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, até 2020, a depressão deverá ocupar o segundo lugar no ranking das doenças mais incapacitantes, gerando altos custos para os sistemas de saúde. Diante desse cenário, o objetivo desse texto é apresentar informações relevantes sobre a depressão, a partir do ponto de vista médico e psicológico.
            Inicialmente, deve-se destacar que nem toda tristeza é considerada depressão e a distinção entre essas duas condições é fundamental para que as pessoas busquem o auxílio adequado. A tristeza é considerada uma reação emocional “normal” diante das adversidades da vida. Ser demitido do emprego, terminar um relacionamento de longa data e experienciar a morte de alguém próximo, são situações que fazem com que as pessoas se sintam tristes, incapacitadas e sem disposição. No entanto, nesses casos esses sentimentos e reações desaparecem após alguns dias ou semanas e a pessoa se adapta à nova situação, retomando suas atividades diárias sem ajuda terapêutica ou medicamentosa.
            No caso da depressão, por outro lado, os sentimentos e reações são intensos e duradouros, produzindo sofrimento à pessoa e prejudicando seu funcionamento social, profissional e pessoal. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), para caracterizar um transtorno de depressão, a pessoa deve apresenta humor deprimido, diminuição do interesse ou prazer em realizar suas atividades, perda ou ganho de peso, insônia ou excesso de sono, fadiga, perda de energia, agitação, ansiedade, além de dificuldade de concentração que podem ocorrer na maior parte do dia por pelo menos duas semanas consecutivas. Os tratamentos indicados para a depressão – do ponto de vista médico e biológico – geralmente incluem medicamentos, como a Fluoxetina ou Escitalopram ou, ainda, estabilizadores de humor, como Depakote ou Carbolitium. Cabe à pessoa que sofre de depressão a busca por um médico psiquiatra que possa avaliar a necessidade ou não do uso de medicação.
Apesar de bastante útil, o DSM não considera as particularidades de cada pessoa deprimida, restringindo sua atenção aos sintomas. Para a Análise do Comportamento, abordagem psicológica que orienta a prática de diversos profissionais da saúde mental, antes de ser considerada como sendo um transtorno psicológico, a depressão é entendida como um padrão de relações entre o indivíduo e o ambiente, caracterizado pela diminuição geral das ações do indivíduo e da sua interação com o ambiente. Alguns aspectos importantes dessa relação incluem, a perda do valor de eventos definidos como “prazerosos” e/ou “motivadores” para a pessoa, redução da capacidade de exercer mudanças em sua vida ou, ainda, a incapacidade de enfrentar situações estressantes pelas quais tem passado. Também é comum que a pessoa que está passando por esses problemas receba apoio social ao apresentar comportamentos como choro, reclamações e irritabilidade, de modo que esses comportamentos se tornam mais frequentes. Desse modo, a Análise do Comportamento considera cada caso como singular e exige uma investigação aprofundada da história de vida do indivíduo.
            A perspectiva analítico-comportamental permite ainda avaliar as variáveis que estabeleceram e que mantêm os comportamentos de uma pessoa em depressão por meio da análise de contingências, sendo estas definidas como relações de dependência entre os eventos ambientais e as ações do indivíduo. A partir das relações de contingência pode-se descobrir que as possíveis razões pelas quais uma pessoa apresenta depressão.  Assim, é importante fazer uma análise da depressão, tendo como base os eventos ambientais que são passíveis de serem modificados pelo próprio indivíduo. O principal objetivo do terapeuta analítico-comportamental é ajudar a pessoa a compreender seu próprio comportamento depressivo e propor intervenções que permitam que ela realize mudanças e novas formas de se comportar em relação ao seu ambiente.
            Apesar de apresentarem posições diferentes, as áreas da Psicologia e Psiquiatria unem forças para desenvolver os melhores tratamentos para a depressão que, na maioria das vezes, apresenta os melhores resultados a partir da combinação de terapias comportamentais e medicamentosa. Caso você esteja passando por essa situação ou conheça alguém que esteja, não ignore os sinais! A tristeza também pode se tornar um quadro depressivo mais severo e o diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento obtenha resultados positivos. Por isso, informe-se, auxilie outras pessoas, procure ajuda. Depressão tem solução!

Referências

American Psychiatric Association (2014). Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders, (5th ed.). Washington DC: American Psychiatric Association.

Cavalcante, S. N. (1997). Notas sobre o fenômeno depressão a partir de uma perspectiva analítico-comportamental. Psicologia: Ciência e Profissão, 17(2), 2-12.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

É possível ser feliz na universidade?


Fernanda Torres Sahão
Nádia Kienen

            “Passei no vestibular! Agora é só alegria”, disse o calouro, em meio a risadas e expressões de “dó” dos amigos e familiares que já passaram pela universidade. O sofrimento vivido nesse contexto, apesar de algumas vezes levado na brincadeira, vem sendo fonte de preocupações e cada vez mais recorrente no meio universitário. Sobrecarga de atividades, assuntos mais complexos e exigência de desenvolvimento de um novo repertório para lidar com tudo isso são fatores presentes na sua vida, não são? Você passa a maior parte do seu tempo nesse contexto, precisando conciliar aspectos da sua vida pessoal com os desafios da formação profissional. As experiências vividas na universidade têm grande impacto na sua qualidade de vida, dentro e fora desse contexto. 
            A qualidade de vida dos estudantes vem sendo alvo de reportagens, estudos empíricos e teóricos, e foco de intervenção, tanto no Brasil quanto em outros países do mundo. Constata-se um aumento na frequência de distúrbios de comportamento na população universitária, especialmente em relação aos níveis de estresse, ansiedade e depressão (Padovani et al., 2014). Além disso, o tema tem sido amplamente discutido e até polemizado nas redes sociais, com estudantes alertando para o custo de estar na universidade, a pressão sentida e o sofrimento causado pelas demandas, além da rotina exaustiva vivenciada.
            Não é possível separar as experiências vividas na universidade de outros aspectos da sua vida fora do contexto universitário, considerando o tempo que você passa nesse ambiente e as interações sociais que você estabelece. Para entendermos a complexidade da adaptação acadêmica, precisamos considerar pelo menos cinco dimensões da vida do estudante (Almeida, Soares, & Ferreira, 2002): (1) a dimensão pessoal (ajustamento psicológico e bem-estar geral), (2) interpessoal (nível de integração com amigos e percepção de apoio), (3) carreira (decisão e satisfação com a escolha), (4) estudo (nível de organização e compromisso com estudo) e (5) institucional (satisfação e vínculo com a instituição).
            Alguns aspectos comuns que estão relacionados a essas dimensões são: desempenho acadêmico, gestão do tempo, autonomia, administração dos recursos financeiros, problemas com professores e colegas, ajustamento a novas regras, assumir novas responsabilidades, lidar com tarefas acadêmicas mais exigentes e expectativas com o mundo do trabalho. Isso tudo lhe parece familiar? O que é possível fazer para lidar com tantos fatores que, aparentemente, podem parecer fora do seu alcance? Será que há uma luz no fim do túnel?
            Respondendo a essas perguntas, alguns autores apresentam sugestões que podem facilitar a sua vida na universidade, como: (a) buscar informações sobre as oportunidades oferecidas pela universidade (tanto atividades acadêmicas quanto atividades que promovam a socialização); (b) comprometer-se com a vida acadêmica, pois desenvolver-se intelectualmente pode auxiliar na adaptação; (c) organizar o seu tempo, de modo a planejar momentos não só de estudo, mas também para lazer; (c) realizar atividades que estejam de acordo com seus objetivos profissionais; (d) procurar professores, colegas, funcionários caso esteja precisando de informações, ajuda ou mesmo de um ombro amigo! Ter uma rede de apoio é imprescindível para levar uma vida mais satisfatória na universidade. Lembre-se: você não está sozinho nessa! Caso esteja passando por momentos de sofrimento intensos, procure a clínica psicológica da universidade, ou busque informações sobre locais que oferecem esse tipo de serviço.
E então... será que é possível ser feliz na universidade? O túnel pode ser um pouco longo, escuro e com alguns obstáculos. Mas, com um pouco de ajuda, podemos agir de modo a abrir algumas frestas nesse caminho, enfrentar os obstáculos e ver a luz não só no fim do túnel, mas durante todo o percurso!

Referências
Almeida, L. S., Soares, A. Paula C., & Ferreira, J. A. (2002). Questionário de vivências acadêmicas (QVA-r): avaliação do ajustamento dos estudantes universitários. Avaliação Psicológica, 1(2), 81-93. Recuperado de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712002000200002&lng=pt&tlng=pt

Padovani, R. C., Neufeld, C. B., Maltoni, J., Barbosa, L. N. F., Souza, W. F. de; Cavalcanti, H. A. F., & Lameu, J. N. (2014). Vulnerabilidade e bem-estar psicológicos do estudante universitário. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 10(1), 2-10. doi: 10.5935/1808-5687.20140002

Teixeira, M. A. P., Castro, G. D., & Piccolo, L. R. (2007). Adaptação à universidade em estudantes universitários: um estudo correlacional. Interação em Psicologia, 11(2), 211-220.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A mentira sob a perspectiva analítico-comportamental


Pedro E. A. Costa
Paulo R. H. Gurgel
Verônica Bender Haydu
Alex E. Gallo

Mentir é tão humano como errar ou talvez até mais. Mas por que mentimos? Como aprendemos a mentir?  É possível identificar quando alguém está mentindo? Compreender os processos de aquisição e manutenção do comportamento de mentir é importante para esclarecer esse comportamento sob a perspectiva analítico-comportamental. Aqui será discutido como esse comportamento é aprendido e algumas maneiras de identificar o comportamento de mentir por meio de observação.
O mentir, sob a perspectiva analítico-comportamental, é um operante verbal – um comportamento que gera consequências mediadas pelo outro, as quais o fortalecem. O comportamento verbal tem uma característica própria, ele afeta o comportamento de outras pessoas fazendo-as se comportar de determinadas maneiras (Haydu, 2005a). Enquanto operante verbal, o mentir pode ser aprendido na interação do indivíduo com os membros da comunidade verbal desde os primeiros anos de sua vida (Haydu, 2005a; Honório, 2012). Ele poder ser modelado por suas consequências e pode ser adquirido por meio de imitação e/ou de instruções. Observa-se uma frequência maior de mentiras quando o indivíduo é exposto a ambientes considerados punitivos (Haydu, 2005b; Hübner, da Roch, & Zotto, 2010). Outro motivo que pode levar a emissão da mentira é a possibilidade de acesso a algo que o mentiroso não acredita conseguir de outra forma, tais como prestigio e vantagens (Haydu, 2005b). Reafirmado, comportamento de mentir é mantido pelas consequências que produz.
O mentir não é apenas comportamento verbal, vocal e consciente. Estudos empíricos relatam que por muitas vezes o corpo pode apresentar diversos “sinais’’ não passiveis de controle, que podem servir como pistas para identificar quando o indivíduo está mentindo (Honório, 2012; Hübner et al., 2010). Esses comportamentos, tais como expressões faciais, são denominados não verbais, e podem servir como indicativos de sentimentos e sensações.
Ao mentir, é possível se observar que o mentiroso apresenta com maior frequência: dificuldade em desenvolver o assuntou ou história, evitação de contato visual, baixa frequência de movimentos de braços e movimentos da cabeça incompatíveis com suas verbalizações do sim e do não.  Por mais inusitado que pareça, o mentiroso tende a movimentar verticalmente a cabeça quando diz não e horizontalmente a cabeça quando diz sim (Hübner et al., 2010). Entretanto, deve-se considerar que outros fatores, por exemplo, a ansiedade, medo, dor e até mesmo um bom treino de como omitir ou apresentar tais comportamentos, podem interferir em uma análise funcional desse comportamento.
A comunicação, por muitas vezes, vai muito além da vocalização e o comportamento não verbal pode fornecer informações que diferem ou completam o que foi dito. Os argumentos apresentados nos parágrafos anteriores permitem sugerir que o comportamento de mentir é uma das funções básicas de linguagem, é consciente ou inconsciente, verbal ou não verbal, e tem por objetivo oferecer informações falsas ou privar das verdadeiras. Além disso, o mentir é uma parte integrante repertório verbal estabelecido ao longo da interação do indivíduo com a comunidade verbal e a instalação do repertório é tão importante quanto sua identificação.

Referências

Haydu, V. B. (2005a). Como se aprende a mentir? Tribuna do Vale do Paranapanema, Rolândia, nº 1193, p. 3.  Disponível em: http://www.uel.br/pessoal/haydu/textos/como_se_aprende_a_mentir.pdf
Haydu, V. B. (2005). Por que as pessoas mentem? Tribuna do Vale do Paranapanema, Rolândia, nº 1195, p. 7. Disponível em: http://www.uel.br/pessoal/haydu/textos/por_que_as_pessoas_mentem.pdf.
Honório, F. F. (2012). Precisão na detecção de mentiras: Investigação sobre o efeito da detecção indireta. Dissertação de Mestrado em Ciências do Comportamento, Universidade de Brasília. Brasília. 
 Hübner, M. M., da Rocha, G. M., & Zotto, L. L. S. (2010). Mentira. In P. I. C. Gomide (Org.), Comportamento Moral: Uma Proposta para o Desenvolvimento das Virtudes. Curitiba, PR: Juruá.