terça-feira, 20 de junho de 2023

Mindfulness na Análise do Comportamento?

 

 

Um macaco meditando. Na literatura budista o macaco é usado para representar “inquietação e distratibilidade”. 
Fonte: imagem foi gerada com a Inteligência Artificial “craiyon” em 11/06/2023.

Wildson Cardoso Assunção

Célio Roberto Estanislau

 Verônica Bender Haydu

No mundo tecnológico acelerado e repleto de estímulos em que vivemos, muitas pessoas têm dificuldade em manter alguns cuidados com sua própria saúde e rotina, o que favorece o surgimento do estresse. Em níveis avançados, o estresse pode levar à Síndrome de Burnout. Considerando esse aspecto, Jon Kabat-Zinn propôs em 1979 uma terapia chamada de Redução de Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR). Essa terapia é desvinculada de práticas religiosas e tem chamado a atenção da comunidade científica ao longo das últimas décadas devido às evidências de efeitos positivos tanto nos relatos de praticantes quanto por meio de resultados de pesquisas empíricas.

O estudo do estresse não tem sido um tema central de interesse na Análise do Comportamento (AC), mas Sanzovo e Coelho (2007), descreveram o estresse como uma resposta do organismo a estímulos aversivos. Além disso, esses autores citam que de acordo com Torres e Coelho (2004) “uma importante habilidade no manejo do stress é estar sempre sensível às contingências de maneira que seja possível perceber as mudanças significativas no ambiente que poderiam vir a demandar algum tipo de adaptação” (Sanzovo & Coelho, 2007, p. 236).

Uma alternativa de tratamento dos sintomas de estresse são as práticas de mindfulness (atenção plena), as quais têm sido utilizadas por terapeutas analítico-comportamentais da Terapia de Aceitação e Compromisso (cf. Brinkborg et al., 2011) e da Psicoterapia Analítica Funcional. Apesar desse método parecer bastante diferente dos métodos da AC tradicionais, Muñoz-Martinez et al. (2017) defendem que mindfulness pode ser entendida como uma habilidade (devido à objetividade de auto descrição verbal sobre o que o indivíduo faz) ou como estratégia (devido às práticas de exercícios específicos). Além disso, uma das definições mais comuns da mindfulness se refere simplesmente à atenção (Martin, 1977) e conforme destacaram Strapasson e Dittrich (2008), a atenção é um comportamento, passível de análise funcional.

Os estudos em AC sugerem que, de forma semelhante ao que ocorre em outras áreas da ciência, mindfulness tanto pode ser vista como uma habilidade que pode ser aperfeiçoada (uma prática mantida pelas suas consequências), como pode ser vista como uma intervenção com potencial de influenciar outros comportamentos (cf. Fuller & Fitter, 2020; Reed, 2023). Embora ainda haja muitas questões a serem exploradas na relação entre mindfulness e Análise do Comportamento, as pesquisas até o momento indicam um potencial promissor. Concluímos que a integração das abordagens terapêuticas analítico-comportamentais com a mindfulness pode ampliar as estratégias de intervenção e oferecer ao cliente uma melhor forma de cuidado pessoal por meio da atenção a si mesmo.

 Referências

Brinkborg, H., Michanek, J., Hesser, H., & Berglund, G. (2011). Acceptance and commitment therapy for the treatment of stress among social workers: A randomized controlled trial. Behaviour Research and Therapy, 49(6-7), 389-398. https://doi.org/10.1016/j.brat.2011.03.009

Fuller, J. L., & Fitter, E. A. (2020). Mindful parenting: a behavioral tool for parent well-being. Behavior Analysis in Practice, 13, 767-771.   https://doi.org/10.1007/s40617-020-00447-6

Martin, J. R. (1997). Mindfulness: A proposed common factor. Journal of Psychotherapy Integration, 7(4), 291–312. https://doi.org/10.1023/B:JOPI.0000010885.18025.bc

Muñoz-Martínez, A., Monroy-Cifuentes, A., & Torres, L. (2017). Mindfulness: Process, skill or strategy? A behavioral-analytic and functional-contextualistic analysis. Psicologia USP, 28, 298-303. https://doi.org/10.1590/0103-656420160038

Reed, P. (2023). Focused-attention mindfulness increases sensitivity to current schedules of reinforcement. Journal of Experimental Psychology: Animal Learning and Cognition, 49(2), 127–137. https://doi.org/10.1037/xan0000352

Sanzovo, C. É., & Coelho, M. E. C. (2007). Estressores e estratégias de coping em uma amostra de psicólogos clínicos. Estudos de Psicologia (Campinas), 24(2), 351-365. https://doi.org/10.1590/S0103-166X2007000200009

Strapasson, B. A., & Dittrich, A. (2008). O conceito de "prestar atenção" para skinner [The concept of "paying attention" for skinner]. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24(4), 519–526. https://doi.org/10.1590/S0102-37722008000400016.

Torres, N., & Coelho, M. E. C. (2004). O stress, o transtorno do pânico e a psicoterapia: a pessoa e sua vida. In M. Z. Brandão et al. (Orgs.), Sobre comportamento e cognição. Contingências e metacontingências: contextos sócios- -verbais e o comportamento do terapeuta (pp.339-344). ESETec.

domingo, 28 de maio de 2023

A Análise do Comportamento e os efeitos da música sobre o comportamento

  

Burrhus Frederic Skinner tocando uma música do Peter Bjorn and John em seu violino (risos). 

Essa imagem foi gerada com a Inteligência Artificial “DALL·E 2” em 22/05/2023, às 22:05:23.


Wildson Cardoso Assunção

Universidade Estadual de Londrina

Lidiane Diniz de Andrade

Universidade de Brasília

Verônica Bender Haydu

Universidade Estadual de Londrina


A música é maravilhosa! Quase todas as pessoas concordam com essa afirmação, não é mesmo? E não é à toa que a música desperta interesse em diversas áreas científicas. Física, matemática, sociologia, antropologia e até a Análise do Comportamento estão entre as ciências que se dedicam a explorar a música, cada uma com suas próprias perspectivas e métodos. Um interesse em comum é referente a quais efeitos a música causa nas pessoas e porque ela causa esses efeitos.

Se você fosse realizar um estudo sobre esse tema, quais perguntas de pesquisa você gostaria de responder?

Analistas do comportamento têm feito perguntas de pesquisa sobre os efeitos da música no comportamento tanto de humanos quanto de animais não humanos. Podem ser encontradas na literatura pesquisas experimentais e aplicadas relacionadas com a avaliação dos  efeitos da música no alívio do estresse, na produtividade, motivação, aprendizagem, atividade física e desempenho atlético, bem como mo comportamento de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O Journal of Applied Behavior Analysis e o Journal of the Experimental Analysis of Behaviors publicaram diversos estudos sobre o tema. Por exemplo, Gibbs et al. (2018) conduziram um estudo que focou em vocalização estereotipada (comportamento vocal repetitivo, sem função comunicativa e que geralmente é mantido por reforço automático). Os autores avalairam se a combinação de duas intervenções, Estimulação Combinada (intervenção que fornece acesso não contingente a estímulos que correspondem às consequências do comportamento-alvo e a Interrupção) e o Redirecionamento da Resposta (intervenção que interrompe comportamentos inadequados e redireciona o indivíduo para um comportamento mais apropriado) seriam mais eficaz do que o uso de apenas uma isoladamente. Os resultados indicaram que a combinação das duas intervenções foi mais eficaz na redução da vocalização estereotipada, resultando em maior foco dos participantes nas tarefas e requerendo menos intervenções.

Outros estudos exploraram o uso da música como reforço em diferentes contextos, como no tratamento de comportamentos problemáticos em crianças com desenvolvimento atípico  (Barmann et al., 1980), no treino de nadadores competitivos (Hume & Grossman, 1992), e por meio de um programa de enriquecimento musical no reforço alimentar (motivação para comer) (Kong et al., 2022). Essas pesquisas ampliam muito o que sabemos sobre como a música afera o comportamento dos organismos. Contudo, ainda há muito o que investigar: gênero musical, duração, velocidade, fatores relacionados à preferência individual, fatores relacionados à idade, efeitos de diferentes intervenções musicais sobre os diferentes tipos de transtornos, enfim... muita coisa. Agora que você conhece essas evidências, quais perguntas de pesquisa você faria, se fosse realizar um estudo sobre música e Análise do Comportamento?

 Referências

Barmann, B. C., Croyle-Barmann, C., & McLain, B. (1980). The use of contingent-interrupted music in the treatment of disruptive bus-riding behavior. Journal of Applied Behavior Analysis, 13(4), 693-698. https://doi.org/10.1901/jaba.1980.13-693.

Gibbs, A. R., Tullis, C. A., Thomas, R., & Elkins, B. (2018). The effects of noncontingent music and response interruption and redirection on vocal stereotypy. Journal of Applied Behavior Analysis, 51, 899-914. https://doi.org/10.1002/jaba.485

Hume, K. M., & Grossman, J. (1992). Musical reinforcement of practice behaviors among competitive swimmers. Journal of Applied Behavior Analysis, 25, 665-670. https://doi.org/10.1901/jaba.1992.25-665.

Kong, K. L., Eiden, R. D., Morris, K. S., Paluch, R. A., Carr, K. A., Epstein, L. H. (2022). Reducing relative food reinforcement of infants using a music enrichment program: a randomized, controlled trial. American Journal of Clinical Nutrition, 116(6), 1642-1653. https://doi.org/10.1093/ajcn/nqac209.

domingo, 9 de abril de 2023

Quem pode ser criativo(a)?




Amanda Lottermann, Bruno Teixeira Silva, Isabella Roque,

Laryssa Rodrigues, Verônica Bender Haydu


A criatividade pode ser compreendida como um processo relacionado à inovação, à criação e a comportamentos novos nas sociedades humanas. Durante nossa história houve muitas interpretações dos produtos criativos humanos, comumente sendo interpretados como inspirações divinas ou advindos da genialidade. Atualmente, a criatividade pode ser entendida como um processo natural, passível de ser estudado e aprendido (Dacey, 1999). As perguntas que pode surgir são: Quais condições favorecem a aprendizagem de comportamentos criativos? Quem pode ser criativo?

Os membros de nossa cultura reservam o termo criatividade para novos aprendizados ou resoluções de problemas dito como mais “flexíveis”, ou seja, indivíduos que variam mais seus repertórios (Skinner, 1968). Pessoas que, geralmente, são consideradas criativas agem de forma variada e pouco convencional, costumeiramente conhecidas como indivíduos que “pensam fora da caixa”. Elas provavelmente são criativas porque tiveram em suas vidas mais oportunidades de inovar, foram expostas a situações em que a inovação produziu solução a algum problema. Assim, pode-se afirmar, conforme Barbosa (2003) que a criatividade pode ser aprendida e executada por cada um de nós nos diversos contextos que vivenciamos, sendo um processo natural.

Na perspectiva de a criatividade ser um processo natural, comportamentos que emitimos em nosso dia a dia podem ser considerados criativos. Por exemplo, a procura de soluções para problemas novos ou soluções novas para problemas já existentes do mais sutil ao mais complexo sem ajuda de manuais. Aprender a tocar um instrumento novo, consertar um problema hidráulico ou elétrico em sua casa, experimentar desenhar sem borracha, descobrir sem mapas caminhos novos, começar uma atividade sem a necessidade de ser bom.

Para sermos criativos é necessário entrarmos em contato com diferentes situações problemas e diferentes maneiras de solucioná-las, para aprendemos a nos comportar diante de variáveis novas. Quando uma resposta e suas variações são reforçadas, diminuímos a chance de selecionar um comportamento estereotipado e seleciona-se uma classe comportamental de inovação. Se todos temos a oportunidade de aprender coisas novas, podemos considerar que todos podem ser criativos. Possivelmente não sejamos considerados grandes artistas, escritores, arquitetos, designers ou músicos, mas seremos, em certa medida, bons solucionadores de problemas.

 

Referências

 Barbosa, J. I. C. (2003). A criatividade sob o enfoque da análise do comportamento. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 5(2), 185-193.

Dacey, J. S. (1999). Concepts of creativity: A history. In S. R. Pritzker (Org.) Encyclopedia of Creativity. (pp.309-322). Academic Press.

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. Appleton-Century-Crofts.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Criatividade sob uma perspectiva comportamental


Wildson Cardoso Assunção, Thayná Krueger, Isabela Caroline Machado

Ariany Estefani de Lima Deltrejo, Verônica Bender Haydu


A questão sobre a origem da criatividade tem sido discutida há muito tempo, com especulações que variam entre talento inato, dom divino ou mesmo resultado do acaso. Com base no senso comum, acredita-se que pessoas inteligentes, que leem e estudam muito, possuem maior disposição a serem criativas. Entretanto, a criatividade não é algo inato, mas uma habilidade que pode ser desenvolvida e aprimorada ao longo da vida. A leitura e o estudo podem ampliar nosso conhecimento e repertório, o que pode contribuir para uma maior capacidade criativa. Importante ressaltar que a criatividade não é um fenômeno isolado, mas está sempre relacionada ao ambiente e às situações em que nos encontramos.

A criatividade é conceituada pela Análise do Comportamento (ciência que estuda o comportamento humano) como um comportamento e, como todo comportamento, tem uma função. Conforme essa perspectiva, há a criatividade-p, que se refere à emissão de comportamentos novos (ou pelo menos um comportamento próximo a um comportamento novo) do indivíduo. Esses comportamentos podem emergir na resolução de problemas diários ou em situações que possuem alguma relevância para o próprio indivíduo. Por exemplo, imagine que você seja proprietário de um estabelecimento comercial e tenha enfrentado problemas nos horários de pico, criando excesso de demanda e desorganização. Você resolve então desenvolver, utilizando materiais recicláveis, um mecanismo de controle de entrada - uma catraca - por meio da qual pode controlar a quantidade de pessoas que estão ao mesmo tempo dentro de seu estabelecimento. Esse é um comportamento novo para você e seus clientes, possivelmente efetivo na resolução do problema, podendo ser considerado um exemplo de criatividade-p.

Agora, imagine que você, de repente, ficasse sozinho no planeta Terra e, após alguns anos nesse cenário hipotético, você fundasse uma empresa de criação de catracas produzidas com materiais recicláveis, para que suas produções pudessem ser utilizadas em outras empresas e ambientes. Qual seria a função de suas produções, se não há mais ninguém? Lembre-se que para “criar” essa catraca você emitiu um comportamento novo individual. Entretanto, qual seria a função de aperfeiçoar e patentear esse equipamento, se não há mais ninguém além de você? Para que um comportamento dessa natureza seja considerado criativo, é necessário que exista um problema a ser resolvido, que essa resolução seja considerada socialmente relevante (na opinião de quem está participando ou sendo beneficiado) e que seja efetiva. Aqui, nos referimos a outro tipo de criatividade, a criatividade-h. Esse conceito é parecido com o da criatividade-p, mas possui uma função para além do comportamento do indivíduo, uma dimensão social.

Diante dos dois conceitos de criatividade, é natural que surjam perguntas sobre como podemos estimular o desenvolvimento de comportamentos criativos. Não existe uma receita, pois cada pessoa se comporta de forma diferente, mesmo que vivam em ambientes semelhantes. Para ser criativo o comportamento deve ser novo. Existem algumas possibilidades de estimulações à criatividade como, por exemplo, o arranjo de ambientes que propicie exposição a novas situações. Assim, pode emergir uma variabilidade na forma de se comportar em relação ao ambiente ao qual uma pessoa foi exposta (pessoas, lugares, coisas, brinquedos/brincadeiras, jogos, lazer, trabalho, leitura etc.). Outra forma de estimular a criatividade é, em meio à exposição ao ambiente novo, fornecer ou programar situações que demandem de resoluções de problemas, a partir da solução de problemas mais simples aos mais complexos. Espera-se que ao longo do tempo haja o que chamamos de recombinação de repertórios (ou recombinação de comportamentos aprendidos). Essa recombinação faz com que uma dada resolução de problemas previamente aprendida possa ser útil em outros contextos ou, ainda, várias resoluções podem se tornar uma única resolução para um problema complexo novo.

Conclui-se, portanto, que a criatividade não é uma característica inata, um dom divino ou resultado do acaso, mas que ela pode ser desenvolvida e aprimorada ao longo da vida. Existem diferentes tipos de criatividade, cada um com uma função específica, mas todos relacionados ao ambiente e às situações em que nos encontramos. Para estimular a criatividade, é necessário expor-se a novas situações e fornecer ou programar situações que demandem resoluções de problemas, permitindo a recombinação de repertórios. Dessa forma, é possível desenvolver habilidades criativas que sejam efetivas e socialmente relevantes.

 

Para saber mais sobre esses e outros conceitos de criatividade, aprofundar seus conhecimentos e se divertir em uma boa leitura, recomendamos o livro Criatividade: Suas origens e produtos sob uma perspectiva comportamental, publicado em 2018 por Hernando Borges Neves Filho.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Encontrando as funções dos nossos comportamentos

 


 

Poliana Sanches, Karen Rancura, Letícia de Assis P. Jardim,

Andressa Félix Ferreira, Maria Cecília Bonfim dos Santos e

Verônica Bender Haydu

Será que o que fazemos acontece por acaso? Você já parou para pensar na razão pela qual nos comportamos do jeito que o fazemos? Compreender o que fazemos e por que o fazemos é parte do processo de autoconhecimento. Essa análise pode nos ajudar a tomar decisões que sejam compatíveis com aquilo que esperamos como resultados de nossas ações. É olhando para as consequências do que fazemos que nos tornamos mais sensíveis aos motivos de nos comportamos de determinada maneira. A análise do comportamento é uma ciência que busca responder algumas questões como as apresentadas acima. Uma das principais ferramentas utilizadas por essa ciência para compreender o ser humano e suas ações é a análise funcional do comportamento.

Para explicarmos o que é a análise funcional para o analista do comportamento, precisamos caracterizar o que é comportamento. O comportamento é entendido como a relação entre (a) o contexto em que uma ação ocorre, (b) a própria ação e (c) as consequências dessa ação. Assim, para entender a função dos nossos comportamentos – a razão pela qual ele ocorre – precisamos olhar não só para nós mesmos, mas para o que está acontecendo quando nos comportamos, e o que ocorre depois de nos comportarmos. As consequências de nossas ações são muito importantes nessa análise: elas alteram a probabilidade de voltarmos (ou não) a fazer o que fizemos. Isso, algumas vezes, pode parecer óbvio, mas em outros momentos, pode acontecer sem que percebamos.

Então o que é a análise funcional? É a investigação dessa interação. Observar em qual situação o comportamento aconteceu, a ação em si, e as consequências que a ação produziu, para então tentarmos identificar qual a função daquele comportamento que faz com que ele continue acontecendo.

Para a análise funcional consideramos os comportamentos que foram mantidos, ou seja, aqueles que produziram consequências reforçadoras. Por exemplo, podemos descrever o comportamento de uma criança que fez birra no supermercado porque queria um doce. Seu pai ficou com vergonha do comportamento da criança e entregou o doce para ela parar de chorar. Por meio da análise funcional, conseguimos observar que a criança faz birra porque anteriormente esse comportamento fez com que ela obtivesse o que queria.

Em um segundo exemplo, podemos imaginar que estamos com dor de cabeça, uma situação aversiva. Então decidimos tomar um medicamento e a dor é aliviada. Fazendo a análise funcional verificamos que tomamos o medicamento porque anteriormente, ao realizarmos essa ação, nossa dor foi aliviada. Esses são exemplos simples, para auxiliar na compreensão de como é feita uma análise funcional. No entanto, é possível realizar análise funcional de comportamentos complexos, como ansiedade, depressão, relações afetivas, entre outros. Esse procedimento pode ser realizado com a ajuda de analistas do comportamento em contextos terapêuticos, nos quais são analisados comportamentos relevantes para você e que você deseja compreender e mudar.

            Ser capaz de realizar análises funcionais do próprio comportamento pode contribuir tanto para o desenvolvimento do autoconhecimento quanto para a possibilidade de mudança. Quando encaramos nossas ações como fruto do acaso, não existe nada que possa ser feito para mudar, mas quando compreendemos que nossos comportamentos são mantidos por suas consequências e identificamos suas funções, podemos prever nossas respostas de acordo com os contextos e emitir comportamentos alternativos que nos propiciem o acesso as consequências desejáveis.

           

Você pode acessar um artigo de revisão da literatura sobre este tema em:

Costa, S. E. G. de C., & Marinho, M. L. (2002). Um modelo de apresentação de análise funcionais do comportamento. Estudos de Psicologia (Campinas), 19(3), 43-54. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2002000300005

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Educação de crianças e regras: uma conversa com pais



Gabriel Rodrigues Vitti, Gabriela Pires Malacrida, Letícia de Paula Von Backschat,

 Marcos Muryan Nobuhara, Matheus Manganaro de Souza e

Verônica Bender Haydu

Quando você era criança, deve ter ouvido frases como: “Não coloque o dedo na tomada, que você vai levar um choque!”, “Leve o guarda-chuva, que vai chover!” ou, ainda, “Não jogue bola dentro de casa!” São regras e mais regras que você ouviu – e muito provavelmente seguiu – quando era criança e, graças a isso, conseguiu evitar muitos problemas e situações desagradáveis. Um choque bem dolorido, uma chuva gelada e forte ou uma janela quebrada. Ainda bem que você conseguiu evitar tudo isso quando era criança, né? E agora é a sua vez de evitar que seu filho passe por essas situações!

Algo que você talvez nunca tenha observado nessas pequenas regras do dia a dia diz respeito à maneira com que elas são estruturadas. É óbvio que uma regra destaca algo que deve ser feito ou, quase sempre, algo que não deve ser feito. No entanto, há mais informações em uma regra completa. Se você prestar atenção, vai observar que a sentença “não coloque o dedo na tomada, que você vai levar choque”, além da ação a não ser feita (colocar o dedo na tomada), descreve uma consequência que aconteceria se essa fosse executada: receber um choque. Podemos chamar isso de uma justificativa para a instrução. Uma consequência, com toda certeza não muito agradável, que explica por que a regra deve ser seguida.

Outras regras, como exemplificado na sentença “leve o guarda-chuva, que vai chover”, indicam essa relação de uma forma um pouco menos evidente, mas ela ainda está lá. Algo que, muitas vezes, só nossas mães são capazes de observar – indicação de que vai chover. Se chover, você certamente vai querer estar com o guarda-chuva para evitar se molhar com a chuva gelada. Essa regra indica que haverá uma situação na qual você precisará estar com o guarda-chuva para não se molhar. Em outras palavras, ela não indica só a ação e a consequência, mas também a situação que ocorre antes de você precisar abrir o guarda-chuva: a chuva gelada. Temos mais uma justificativa para uma regra aqui.

Agora, vamos observar nosso terceiro exemplo: “não jogue bola dentro de casa!” Aqui, só temos a indicação da ação a ser evitada. Para nós adultos, os motivos de não jogar bola dentro de casa podem ser óbvios: queremos evitar uma janela, um copo ou uma televisão quebrada. No entanto, para a criança esse motivo é vago, incompreensível, obscuro. Tudo o que a regra lhe diz é o que ela não deve fazer. Por quê? Ninguém disse a ela. Ela só sabe que deve seguir essa regra.

Todos temos ótimos motivos para seguir regras. Quando as seguimos, evitamos infortúnios. Embora as regras tenham eminente utilidade, elas também podem trazer prejuízos. Indivíduos que apenas seguem ordens superiores, sem refletir sobre o que estão fazendo, podem perder autonomia e, até mesmo, desenvolver comportamento típicos da ansiedade ou da depressão. Ninguém deseja que seu filho se torne um seguidor obsessivo de regras, não é mesmo? Queremos que nossos filhos saibam o motivo pelo qual devem – ou não devem – fazer algo. Para isso, devemos apresentar as justificativas dessas regras, ou seja, as relações entre a situação na qual a regra deve ser seguida, aquilo que a criança deve ou não fazer, e as consequências dessas ações. Desse modo, podemos ajudar nossos filhos a se orientarem no mundo de maneira mais eficaz, compreendendo a razão de suas ações.

 

Você pode acessar um artigo de revisão da literatura sobre este tema em:

Teixeira Júnior, R. R. (2009). Variáveis do Comportamento Governado por Regras: Uma análise de estudos da área. Acta Comportamentalia, 17(3), 351-385. https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=274519448005

 

 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Fair Play: quando os Valores Olímpicos valem mais do que a Vitória


Daiane Zanqueta


My game is Fair Play. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%AAmio_Fair_Play_da_FIFA


Você deve ter ouvido por aí a expressão fair play ou mesmo, visto nos campos de futebol aquelas faixas da FIFA, em azul e amarelo, escrito “My game is fair play”. Mas, você sabe o significado da expressão fair play?

O fair play é conhecido como “jogo limpo” ou jogo justo. Ele foi inserido no esporte por Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos Modernos, no final do século XIX. O Comitê Internacional de Fair Play (CIFP, 2015) caracteriza o fair play como respeito às regras do jogo e ao adversário, espírito de equipe, esporte sem doping, lealdade e entre outros, tidos como valores olímpicos e morais do esporte. Por não ser considerado uma regra do jogo, não há um consenso sobre o que vem a ser o fair play, ainda mais em se tratando das várias e diferentes modalidades esportivas.    

Para a Análise do Comportamento, comportamentos são valorados de maneiras diferentes a depender do contexto ou situação em que ocorrem (Morais et al., 2017). Assim, o fair play não é uma regra universal que descreve as ações corretas ou erradas, e não se trata somente de ações e atitudes que ocorrem entre os atletas, como ajudar o atleta adversário a levantar ou colocar a bola para fora do campo para atendimento de um jogador. Comportamentos de fair play são comportamentos altruístas e genuínos que podem e devem ser exercidos por todos os envolvidos no contexto esportivo.

Quando se fala em esporte, automaticamente a ideia de valores éticos e morais, ou seja, de fair play (ou comportamentos esportivos) é associada. O contexto esportivo é visto, na maioria das vezes, como um espaço para desenvolvimento e aprendizagem de comportamentos caracterizados popularmente como bons e corretos (éticos e morais). No entanto, a maioria das regras no esporte procuram punir o comportamento antiesportivo do atleta e pouco promovem a valorização de comportamentos de fair play ou esportivos (Zanqueta, 2021), isso acaba produzindo confusão... Afinal, como vamos aprender comportamentos de fair play que deveriam ser promovidos se os modelos que temos são de punição? A resposta a essa pergunta pode começar pela reflexão dos exemplos de fair play nos vários âmbitos esportivos, com atletas, pais, árbitros, torcidas e nos e-sports, consecutivamente descritos a seguir, que podem ser usados como modelos de promoção de fair play.

Na Olimpíada de Tóquio 2020, a modalidade esportiva estreante, o skate park, protagonizou uma ação de fair play na final. Na última manobra que definiria a distribuição das medalhas, a então campeã mundial Misugu Okamoto caiu e saiu da pista bem abalada. Ela      foi imediatamente consolada pelas demais finalistas que a cercaram e a abraçaram. A ação empática das finalistas e adversárias de Okamoto fez com que todas elas fossem premiadas com o prêmio de Fair Play das Olimpíadas.

Outro exemplo de fair play ocorreu na esgrima durante as Olimpíadas do Rio 2016. Em um duelo entre o brasileiro Athos Schwantes e o tcheco Jirí Beran, o juiz marcou um ponto a favor do tcheco, deixando-o muito perto da vitória. Jirí Beran, no entanto, foi até o juiz e explicou que não havia tocado no brasileiro. O juiz retirou o ponto e Athos, ganhador da disputa, cumprimentou e pediu para que a torcida aplaudisse o tcheco. Jirí Beran explicou que fez o que aprendeu com o pai, também esgrimista, demonstrando a importância do apoio e incentivo familiar nos comportamentos de fair play.

Continuando com os exemplos de fair play, em uma partida pelo Campeonato Paulista de 2017, em um jogo entre São Paulo e Corinthians, o zagueiro São-paulino, Rodrigo Caio, deu um “pisão” no goleiro do próprio time, mas o árbitro não vê e aplica um cartão amarelo ao atacante corinthiano Jô. Rodrigo Caio vendo o equívoco do árbitro avisa-o que foi ele quem pisou no goleiro e não o jogador adversário. O árbitro voltou atrás e retirou o cartão amarelo aplicado. Esse exemplo de fair play de jogador e árbitro, foi elogiado por órgãos como a CBF e por comentadores esportivos, mas não foi bem-visto pelos torcedores do São Paulo, inclusive pelo próprio capitão do time.

Há também exemplos de fair play entre torcidas, bem como nos e-sports. É o que acontece com as torcidas dos rivais Grêmio e Internacional de Porto Alegre, que desde 2015, reservam uma área mista nos seus estádios, para as torcidas rivais assistirem aos jogos do Grenal juntas. A iniciativa continua dando certo e as torcidas dão um belo exemplo de fair play fora do campo. No caso dos e-sports não é diferente. Alguns jogadores de jogos online como o Dota 2, quando percebem algum problema relacionado com um lag (problemas com a conexão da internet) de um jogador adversário, pausam o jogo para perguntar ou esperar o problema se resolver.

Os exemplos descritos mostram a importância da prática do fair play pelos envolvidos no contexto esportivo. Os atletas, como agentes ativos dentro da competição, podem ser modelos de comportamentos de fair play, assim como é fundamental os pais apoiarem e incentivarem seus filhos a desenvolverem os valores morais do esporte. Não excluindo a importância do árbitro e da torcida colaborarem com essas atitudes e mostrarem que é possível interagir com a torcida adversária, por maior que seja a rivalidade que seus times possam ter. O fair play pode ser uma prática contagiante, mas é preciso ser ensinada e valorizada nos ambientes esportivos.


Referências

CIFP (2015). Internacional Fair Play Committee. [Website]. Recuperado de http://www.fairplayinternational.org/home.

Morais, A. O. de, Melo, C. M. de, & Souza, S. R. de. (2017). Uma análise da ética esportiva a partir do behaviorismo radical. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva18(3), 41–57. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v18i3.921

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Para saber mais sobre o Fair Play

Bosquetti, M.A; Morais, A.O; Altimari, L; Souza, S.R. (2015). Comportamentos de Fair Play e Antiesportivos: avaliação dos árbitros. Revista Perspectivas, vol.06, nº1, pp. 60-73

Morais, A. O. (2014). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: análise do comportamento aplicada à ética esportiva. Dissertação de mestrado (Mestrado em Análise do Comportamento). Universidade Estadual de Londrina, Londrina.

Zanqueta, D. (2021). Comportamentos Antiesportivos e de Fair Play: identificação dos comportamentos dos árbitros de Futsal. Dissertação (Pós-graduação em Análise do Comportamento) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.